“Isto não é sobre mim, é sobre eles!”

– Gustavo Carona

Da minha dor, frustração e revolta, nasceu a vontade de ser médico para um dia poder ajudar outras pessoas a poder sonhar, já que o meu sonho estava perdido.
Da vontade de ser médico nasceu a vontade de salvar vidas.
E da vontade de salvar vidas, nasceu a vontade de olhar para o mundo.
E ao olhar para o mundo nasceu a vontade de dar voz a quem devia ter e não tem.

Saí de casa e deixei tudo para trás com lágrimas nos olhos, por acreditar que os meus saberes tinham que ser postos ao serviço de quem mais precisa. E com vontade de salvar vidas descobri um mundo que a maioria insiste em fingir que não existe. Nas minhas acções tento ser o melhor médico possível, nas minhas palavras carrego histórias de vida que explicam as maiores catástrofes humanitárias dos nossos dias. Muitas são tristes outras alegres, mas o ímpeto que nasce em nós de ser melhor é pura felicidade.

Estava a fazer uma viagem paradisíaca por África depois da minha missão na RDCongo. Sozinho no autocarro li num guia da “Lonely Planet” que a guerra do Congo já tinha acabado. Comecei a chorar compulsivamente com as imagens das pessoas que eu vi a sofrer o inimaginável a propósito do pior conflito das últimas décadas. Prometi a mim mesmo, que nem que fosse apenas para a minha família e amigos, tudo ia fazer para que o mundo conhecesse estas pessoas. Aqui nasceu o sonho de escrever as minhas memórias e as minhas emoções em nome das vidas que estiveram nas minhas mãos.

Sempre que falo em público fico nervoso, porque sinto uma enormíssima responsabilidade na minha vontade de falar em nome de tantos que não têm voz. Penso nas bombas a cair, nas pessoas que me morreram nas mãos, e no quão injusto é o mundo por não querer saber. Engulo a minha revolta, esforço-me para que não seja sobre mim, mas sim sobre eles, e abro o meu coração. Falo para que ouçam as vozes que trago dentro de mim, mas também na esperança que tantos outros possam fazer mais e melhor para tonar este mundo mais bonito.

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9. É Sorte

Nunca como em Mosul senti que estava a viver tão intensamente. A sensação de que a escassos quilómetros de onde eu estava, os bombardeamentos eram constantes, e que centenas de milhares de pessoas estavam sequestradas pelo Estado Islâmico, num cerco que eram as linhas da frente do combate, tornavam o...

8. Confiança

No dia em que entrei pela primeira vez no bloco operatório tive que impor a minha opinião de uma forma que não é frequente: “É da perna. Vocês vão ter que lhe cortar a perna.”, disse eu com firmeza. Nem tivemos tempo para perceber bem o que tinha acontecido, um...

Diário de Um Intensivista VIII

Quem é que nunca pensou em desistir? Nós estamos a lutar em demasiadas frentes e estamos cada vez mais sozinhos. “Nós” os profissionais de saúde, “nós” os que cumprimos as regras definidas para o bem comum, “nós” que percebemos que temos que saber perder para depois ganhar. Ganhar em humanidade,...

Diário de um Intensivista – VII

Nós não tivemos tempo de lamber as feridas. É evidente que estamos numa segunda vaga, e não estamos preparados. Não estivemos, não estamos e talvez nunca fosse possível estarmos. É um problema de saúde pública que só se controla a montante dos hospitais. É um Tsunami silencioso que passa por...

7. O Antídoto

Regresso de uma missão. Ainda estou a pensar de que mundo é que eu vim, e em que mundo é que eu estou. Ainda sinto o cheiro a sangue, a dor, a morte e a sofrimento. Ainda ouço os gritos. Ainda sinto uma injustiça tremenda pelo que o meu coração...

Disisti.

Desisti. Na minha 12a missão encontrei o meu limite e desisti. Foi das decisões mais dolorosas da minha vida. Fiquei destroçado, com o coração em pedaços tão pequeninos que julguei não ser possível alguma vez voltá-los a juntar todos. Senti que estava a ir contra tudo o que eu mais...