Será mesmo que o hábito faz o monge?

Não sei bem porque nunca contei esta história, mas acho que perceberão a importância de a contar agora. Parece que há coisas nas nossas memórias que vão ganhando força com o tempo, e este pedaço do meu passado é uma delas.

Quando acabei a especialidade de Anestesiologia, e antes de começar a especialidade de Medicina Intensiva, tive a oportunidade de fugir do Hospital de São João uns meses entre contractos. Primeiro fiz uma viagem idílica à Costa Rica com a minha ex-namorada durante 15 dias ao sabor das maravilhas da natureza, da tranquilidade das praias, e da cultura de pura-vida dos “ticos”, que me encheram a barriga de sensações maravilhosas que souberam, deliciosamente, a recompensação de muitos anos a estudar e a trabalhar. Moreno e de sorriso na alma, mal cheguei a Portugal, parti para a minha missão no Paquistão. Foi a minha 2a missão, e a minha 1a vez num país muçulmano. É difícil comparar a dimensão dos contrastes quando entramos nas profundidades das montanhas do Congo (1a missão), e as clivagens da cultura, religião, e tensão política dum país como o Paquistão, altamente repressivas e intimidatórias para quem vem de mundos tão diferentes.

Chegado a Islamabad começam os preparativos para o que falta da viagem até à província do Noroeste, bem na fronteira com o Afeganistão. Região esta conhecida como as Áreas Tribais, sendo o epicentro do conservadorismo islâmico, a incubadora de todo o extremismo e fundamentalismo, e a zona do planeta com mais ataques terroristas do planeta, onde há ataques à bomba quase todos os dias. Somos preparados sobre todas as regras culturais e religiosas, e vinculados a um código de conduta que nos permite respeitar a sociedade local, para que seja possível cumprir o objectivo a que nos propomos: tratar doentes e salvar vidas. As autoridades locais exigiam a todos que se usassem as roupas tradicionais do local, sendo ou não paquistaneses, sendo ou não muçulmanos. As mulheres expatriadas usavam roupas tradicionais, véu e cara tapada só com uma frincha para os olhos, e os homens o Shalwar Kameez.

No meu segundo dia em Islamabad fui então comprar um Salwar Kameez com um motorista paquistanês. “O que me foi acontecer?!” Logo eu que tenho alergia a compras, e nem sei escolher fatos ou camisas. Ao entrar na loja, quase que tenho um ataque de pânico tal é a quantidade e diversidade de opções, e eu tal qual um burro a olhar para um palácio, não fazia ideia do que estava ali a fazer. O meu instincto de fuga levava-me a dizer “qualquer um”, mas a diversidade era tanta, que eu não queria sair dali com lantejoulas às cores, ou bordados dourados, em cima de tecidos brilhantes, pelo que tentei explicar que queria algo simples, sóbrio, liso, clássico, por assim dizer. Mesmo depois de perceber que o beije era a minha escolha, ainda palpei a suavidade de não sei quantos tecidos, avaliei os formatos da gola, e o tipo de abertura e botões… o que eu sofri para sair daquela loja. Mas, já estava mais pronto para enfrentar este novo mundo.  

O Shalwar Kameez é uma combinação de uma túnica larga e comprida até aos joelhos, com uma calças muito largueironas que ficam algo abalonadas. Vim a perceber aos poucos que adorava aquele outfit. É mais confortável que um fato de treino com uma liberdade de movimentos infinita, e serve para todas as ocasiões. Parece que foi feito para pessoas como eu, que não gostam de pensar muito no que vestir, valorizam muito o conforto, e vão do informal ao formal e vice-versa, em segundos. Em Islamabad, eu diria que 90% dos homens que eu vi, assim andavam vestidos, mas na terra onde eu vim a chamar casa, durante a minha missão, todos os homens sem excepção usavam estas roupas tradicionais. Nós eramos obrigados a andar assim vestidos por uma questão de respeito à cultura envolvente, era este o acordo entre os Médicos Sem Fronteiras e as autoridades religiosas. Não deixa de ser curioso que um ano mais tarde, quando fui para o Afeganistão, numa terra também dominada por Pashtun, e também rodeada pela pressão dos Taliban, as regras eram opostas: nenhum estrangeiro podia usar Shalwar Kameez com o medo infiltrações de espiões. Bom, mas naquela região do Paquistão ultraconservadora e ultrarradical, as regras eram estas.

Eu sou da opinião que a religião não tem culpa de nada, a culpa é da interpretação da religião feita pelos homens e mulheres. Há muito a criticar ferozmente sobre a interpretação da religião nesta e noutras zonas do planeta, mas há também alguns prismas de pensamento pedagógicos. As razões pelas quais todos os homens respeitadores da cultura andam vestidos de igual, prendem-se com o cultivar da simplicidade, da humildade, da igualdade que me parece uma perspectiva interessante, mas quando sob a mesma plataforma de reflexões, todas as mulheres andam de burqa, já me repugna.

Na cidade de Timergara, a minha nova casa, mandei fazer através de costureiros locais sob medidas um novo Shalwar Kameez, de uma confecção bem mais simplória, e desta vez de cor castanha. E assim andei vestido todos os dias da minha missão, e adorei essa parte da indumentária. Passados 10 anos e outras tantas missões, muitas em países muçulmanos (Síria, Iraque, Iémen, Gaza) foi também a missão mais intensa do ponto de vista cultural e comportamental que absorvi até hoje. Nunca me senti tão longe de casa, tão afastado do meu mundo, tão outsider do que me envolvia como na província do Noroeste do Paquistão, e também do ponto de vista clínico tivemos desafios enormes e grotescos, em particular nas complicações obstétricas peri-parto. Perdi, nas minhas mãos, 8 mulheres, no bloco operatório, quase sempre por roturas uterinas ligadas à administração indevida de medicamentos por parteiras “tradicionais” e pelas grandes demoras em chegar ao hospital numa terra extremamente montanhosa num inverno gelado. Mas felizmente mais foram as vitórias das vidas que seguramos no limite, com uma equipa de trabalho absolutamente incrível, pela sua competência, dinamismo, resiliência e humanismo. Foi dos povos que eu mais aprendi a admirar, ou pelo menos a metade que eu conheci tendo em conta que não conheci as mulheres.

O fim da missão é sempre um turbilhão de emoções. A mistura do que vimos, do que aprendemos, do que crescemos, das memórias dos doentes que nos marcaram, de um povo que nos acolheu, e da vontade louca de regressar a casa e abraçar os meus. Saí de Timergara com as malas feitas em direcção a Islamabad de carro, vestido no meu Shalwar Kameez e o olhar focado em todas as informações que vinham da janela deste mundo tão diferente do meu, desde as montanhas magistrais, aos adornos dos camiões têm um deslumbre carnavalesco, até às barbas dos idosos de cor de laranja forte, que encantam os meus sentidos.

O meu voo era nessa noite. Ainda tive tempo de beber uma cerveja, coisa que já não fazia desde o início da missão, pois nas Áreas Tribais a política de zero-álcool é incontornável. Sem pensar muito, fui para o aeroporto, check-in, embarque e por aí fora. Continuava de Shalwar Kameez. Era o meu novo normal. Era como uma segunda pele. Em Islamabad e muito menos no aeroporto não havia qualquer obrigatoriedade, mas, no entanto, a esmagadora maioria da população estava vestida como eu. Foi na continuidade da minha viagem, foi por tudo o que me envolvia, foi meio por distração, até que comecei a achar graça à ideia: Vou até Portugal assim vestido.

Em Islamabad era mais um, até pelo tom de pele que não é assim tão diferente de tantos. Ao fazer escala em Abu Dhabi já era uma mistura de muito mundo, muitas vestimentas, muitas culturas de todo os cantos do mapa, espalhadas pelos corredores do aeroporto. Em Frankfurt já comecei a sentir-me estranho. Muita gente olha para mim, e eu sorrio de volta. Em todos os controlos de segurança e de passaportes sentia que o tratamento que me davam era mais apertado. “Aleatoriamente” era sempre escolhido para ser revistado com mais atenção. Mesmo que quisesse mudar de roupa tinha as malas algures em trânsito, e sinceramente estava a achar interessante esta experiência sociológica. Enquanto aguardava o meu voo final para o Porto, já exausto de tantas viagens, sentei-me numa mesa dum bar onde já me tinha sentado de outras vezes. Estava tão cansado que pouco mais fazia do que saborear o meu café longo. Já não tinha cabeça para leituras, e apenas me entretinha com o divagar das minhas ideias sobre o mundo que acabara de deixar para trás, e as saudades de casa.

Eu estava sozinho numa mesa. E na mesa ao lado estão 3 portugueses. Eu ouvia as suas conversas com uma clareza e nitidez, que parecia que estavam na minha mesa. Sabe bem ouvir a nossa língua depois de andarmos perdidos pelo mundo. Não que quisesse ouvir, mas no meu silêncio era impossível não fazer parte daquela conversa enquanto ouvinte. São os 3 médicos endocrinologistas. Duas mulheres e um homem. Vêm de um congresso europeu de endocrinologia. Uma das senhoras é do Porto e trabalha no hospital de São João, onde eu trabalhava, embora a cara dela não me seja familiar. Os outros dois são de Lisboa.  A certa altura começam a falar sobre mim. Sentem-se na exclusividade e protegidos pela língua portuguesa, e a minha existência chamou-lhes à atenção:

“Aí, eu não tenho nada contra, mas…”

“Deve ser um Taliban…”

“Daqui a pouco está a rezar para Meca…”

“Uma vez conheci um taxista Iraniano em Londres que me parecia boa pessoa…”

“O pior é como tratam as mulheres…”

“E será que este se vai explodir?” (risos)

“Estes Árabes são muito estranhos!”

“Não se pode confiar nesta gente…”

“Ainda bem que em Portugal, quase não temos disto…”

Foram uns 15 minutos de comentários xenófobos e islamofóbicos dirigidos a mim ou a quem eles acharam que eu era. Umas tiradas mais graves do que outras. Eu não os julguei e não os julgo mais do que me julgo a mim e aos meus , porque certamente a brincar, entre amigos, já dissemos coisas do género. Fui invadido por reflexões e por algumas dores que assumi como minhas. Minhas porque agora tinha amigos que admiro, que me inspiram, que enaltecem a nobreza do ser humano e que andam vestidos assim e acreditam piamente que Maomé é o seu profeta. Pessoas que eu aprendi a adorar e que eu sei que foram, são e serão discriminadas no meu país. Generalizações baseadas na nossa ignorância, falta de empatia e falta de humanidade. Incrível a quantidade de julgamentos que nós somos capazes de fazer por um corte de tecido que não estamos habituados. Impressionante a forma como se mete tudo no mesmo saco. Olhamos para o planeta Terra, cortamos uma fatia de mais de um quarto da população e rotulamos de terroristas, pelo que meia dúzia tem feito, e até esquecendo que as maiores vítimas do extremismo islâmico, são os próprios muçulmanos. Sim, o terrorismo como expressão do radicalismo islâmico é um grave problema, mas bem mais graves, mais frequentes e mais mortíferos são os crimes baseados no racismo e xenofobia.

Levantei-me, sorri e disse-lhes: “Olá, boa tarde. Por acaso eu também sou médico.” Ficaram verdes por ver um Taliban a falar tão bem português. Entupidos, envergonhados, surpreendidos tentavam articular frases sem grande sucesso… “ Nós não… Eu não queria dizer… Desculpe, mas…” … Eu mantive o meu sorriso que era genuíno porque me proporcionaram muito valiosas introspeções e disse-lhes: “Não se preocupem, eu compreendo que não pareço português, mas venho das profundezas do Paquistão, onde estive em missão. Também trabalho no Hospital de São João, como a senhora Doutora… E se me permitem que vos diga: Nem todos os muçulmanos são árabes, e nem todos os árabes são muçulmanos, da mesma forma que as nossas roupas nada dizem sobre o nosso caracter e o nosso valor”… Despedimo-nos cordialmente e eu segui o meu caminho.

Na janela do lado direito do avião, chorei ao sobrevoar o rio Douro e a cidade do Porto a brilhar com a sua iluminação nocturna, enquanto ouvia a “Pronúncia do Norte” dos GNR que é uma tradição que vou mantendo. Claro que fui novamente e “aleatoriamente” selecionado para ser revistado de cima a baixo e mala de fora para dentro, até que finalmente mergulhei para os abraços dos meus pais e da minha ex-namorada que se riam como uns perdidos pela forma como eu regressava a casa desta vez. Eles sabem bem que com qualquer roupa, eu sou o mesmo.

Fico sempre na dúvida, se gosto mais de ir, ou de regressar a casa.

2 Responses
  1. Lara

    É triste saber que somos todos iguais, mas nos ” julgam” todos diferentes ! Depois de ler a sua história só sinto tristeza por o mundo ainda estar assim!!

  2. Fátima Oliveira

    Fico muito emocionada ao ler todos os posts que o Dr. publica! O Sr. é um ser humano exemplar, pena é não haver muito mais pessoas como o Dr.
    Que Deus o abençoe hoje e sempre 🙏
    Muita Saúde
    Um beijinho
    Continue com toda essa força em ajudar o próximo 🙌

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