7. O Antídoto

Regresso de uma missão. Ainda estou a pensar de que mundo é que eu vim, e em que mundo é que eu estou. Ainda sinto o cheiro a sangue, a dor, a morte e a sofrimento. Ainda ouço os gritos. Ainda sinto uma injustiça tremenda pelo que o meu coração carrega do Iraque, e o que os meus olhos contemplam na minha querida cidade do Porto. Já cá estou mas ainda não cheguei, e até me torno um pouco antissocial para fugir à pergunta que me fazem mais frequentemente: “Então, correu tudo bem?” São raras as pessoas, e raros os momentos em que eu falo sobre as minhas missões com a profundidade que representa o que se passa dentro de mim. Eu não sei bem o que dizer, e imagino que ninguém saiba bem o que me dizer a mim. Falo pouco sobre as minhas missões, e talvez por isso eu escreva. E das imensas vezes que me perguntam “Então, correu tudo bem?” sou invadido por um enxurilho de pensamentos que felizmente guardo para mim… “O que é que queres que eu te diga? Se levei algum tiro? Quantas pessoas vi a morrer? Se venho com a cabeça toda f”#$&@? Se é giro saber que à minha volta estão crianças a morrer à fome? Se quando lá estou a hipocrisia dos ricos ainda me dói mais? Queres saber quantas vezes é que chorei sozinho antes de dormir? Se tive medo que alguém se explodisse à minha frente?”… “O que é que é correr tudo bem, quando se entra num mar de sofrimento que a maioria das pessoas paga para fingir que não existe?”… felizmente guardo tudo isto para mim. Espero que a minha intenção nunca seja reagir em revolta, nem em julgamentos fáceis… mas engulo muita coisa a seco.

Mas a resposta a “Então, correu tudo bem?” é uma mistura de tanta coisa, que mesmo que eu quisesse responder, não saberia bem por onde começar. Mas há pedaços dessa resposta que vão saindo a cada história, a cada reflexão… e esta é das que eu mais me agarro.

Estamos em pleno ramadão, e com temperaturas a rondar os 50ºC. Dentro dos meus sonhos estapafúrdios decidi que ia também fazer o ramadão, como experiência de vida. Gosto de viver o que os locais vivem ao máximo, na comida, na música, na cultura, nos costumes… pareceu-me boa ideia. Quando percebi que tenho que acordar às 3.30/4.00 da manhã para a primeira e única refeição do dia até ao anoitecer fiquei meio hesitante porque já me chegam as noites mal dormidas a trabalhar, e depois quando me disseram que também não podia beber água o dia todo decidi que tinha que sonhar com outra coisa qualquer. Mas há vários fenómenos à volta do ramadão que despertam em mim enorme interesse e curiosidade analítica e filosófica. A disciplina, o autocontrolo, o exercitar o poder da mente e o mergulhar profundo na espiritualidade. Mesmo quando me convidaram para o Iftar (o quebrar do jejum) que é um momento muito especial para um muçulmano a cada dia do ramadão, os meus amigos/companheiros de trabalho iraquianos foram capazes de preparar toda uma refeição bem diversa, com várias iguarias para todos os gostos, e apesar de eles estarem há 14 horas sem comer, eu era claramente o mais ganancioso para meter as mãos na comida J)) . É um mês muito duro, de sacrifícios extremos, mas também de celebração profundamente espiritual em comunhão com os amigos e família. Senti um enorme orgulho por me deixarem fazer parte de um momento tão especial. É aqui que se viaja, é aqui que se conhece as pessoas. É aqui que sentimos na pele a humanidade que temos em comum. É aqui que crescemos, que aprendemos, que alargamos a nossa zona de conforto e os nossos horizontes. Partilham-se histórias de vida. Os medos, os traumas, as angústias em relação às suas vidas, das suas mulheres e dos seus filhos. Que futuro lhes espera numa terra a ferro e fogo, e que depois da guerra acabar que vida é que sobra numa cidade completamente destruída? Um campo de deslocados ou refugiados? Uma travessia da morte pelo mediterrâneo? Uma vida sem rumo… Sem esperança, sem grandes motivos para sorrir. Sinto uma conexão enorme com estes agora meus amigos iraquianos. É boa gente.

Baklava, uma das maravilhas do médio-oriente.

A guerra de Mosul é talvez o episódio mais horrendo da nossa história contemporânea, ali se viu o pior do ser humano. Mas quase sempre os extremos coexistem. Ao lado do pior talvez como reacção também se vê o melhor do ser humano. E eu tive o privilégio de estar a ver e a viver ao lado do melhor do ser humano. É uma profunda lição de vida. Daquelas que gostávamos que não fosse preciso de ser dada, mas é. Para mim não são números, não são estatística, nem muito menos gente inferior. São meus amigos. Sei os nomes, sei as histórias de vida. Sei do que são feitos.

Um dia apressei-me a trazer as novidades ao bloco operatório. Cara fechada, voz firme e acelerada: “Rápido, preparem tudo. Temos duas amputações. Rápido.” É difícil para mim saber o que lhes passa pela cabeça. Eu serei sempre um estrangeiro, um turista de emoções. Nunca serei um “deles”. Eles percebem os gritos de sofrimento, eles interiorizam as dores dos que nos chegam ás mãos, porque são ou podiam ser conterrâneos, amigos ou familiares. Todos os que trabalhavam comigo, sem excepção perderam alguém que lhes era próximo nesta guerra. Há uma parte de mim que está lá, a sentir o que eles sentem… mas ao mesmo tempo eu não tenho ninguém do meu “mundo”, família ou amigos que tenha alguma vez passado os horrores destas pessoas, e por extensão eu também não. E por isso nunca saberei, porque nunca me doeu a mim directamente.

“Rápido. Preparem tudo!” Os corações aceleram, o nervosismo dispara. Um dos enfermeiros de quem me tornei mais amigo, confessa-me: “Doutor Gustavo, são 10 da manhã e eu já tenho tanta sede…” Eu não sei o que hei de pensar e muito menos de dizer. Parece-me contra-natura que se faça um esforço tão agressivo para o equilíbrio da nossa fisiologia, mas quem sou eu para dizer o que faz ou não sentido ser feito em nome da espiritualidade e da religião que acreditam ser o centro da sua vida e do bem comum. Faço aquele sorriso enquanto suspiro com cara de parvo de quem não sabe o que dizer…

“Malta, preparem tudo para duas amputações. Preparem os medicamentos, testem os ventiladores, vão buscar o material cirúrgico.” E acordam da sua astenia, como baratas tontas a correr de um lado para outro para que o bloco operatório esteja pronto. Os iraquianos são super rápidos, proactivos, expeditos e competentes… Toda a gente sabe o que fazer, até que o enfermeiro instrumentista me pergunta:

“Amputações de quê?” enquanto vasculha o armário do material cirúrgico…

“Amputações da cabeça.” Respondo eu, alto e firme para que todos ouçam…

Por segundos a azafama mantem-se porque eu estou sério demais para que duvidem da minha palavra, e respeitam-me o suficiente para que tenham nos seus mecanismos automáticos, duvidar da minha palavra.

Até que um enfermeiro me olha na dúvida se foi a barreira linguística, ou se tem direito a soltar um sorriso maroto, com todos os outros a ouvirem:

“Amputações de quê?”

“Amputações da cabeça!”

Desmancham-se todos a rir. Riem-se de alívio porque ainda não é agora que o bloco operatório vai iniciar o seu ritmo frenético. Riem-se porque são menos duas amputações aos “seus” que vão ter de fazer. Riem-se porque toda a gente sabe que só se brinca com quem se gosta genuinamente. E porque no meio da tensão que nos envolve da guerra mais sangrenta da história, ainda é possível encontrar motivos para nos rirmos. E riem-se porque só brinca quem está seguro e confiante. E era a imagem desta equipa muito experiente. Quilómetros de trabalho nas piores zonas de conflito do mundo transmitem uma sensação de refúgio e amparo quando parece estar tudo perdido. O humor dá esperança e dá segurança. Não vamos certamente salvar todos. Para a quantidade de gente que morre o nosso trabalho é um grão de areia no deserto. Mas vamos salvar muitos. E esse é o principio de muita coisa.

Sempre que falo com os meus amigos iraquianos, eles dizem-me que têm muitas saudades das “amputações da cabeça” e lembram-se com muito carinho das rizadas colectivas que tínhamos a propósito destas e doutras palhaçadas. Salvei vidas e ensinei-lhes muita coisa, mas o que mais eles se lembram é das “amputações da cabeça”.

E a verdade é que eu também guardo com muito carinho as sessões de risos que tínhamos juntos. O humor tem um poder infinito quando usado com humanidade. O humor é uma força que nos conduz à empatia.

E por isso o meu primeiro instincto a um “Então, correu tudo bem?” é mandar toda a gente à merda. Mas também tenho memórias maravilhosas das pessoas que cruzam o meu caminho, e sem dúvida as que guardo por mais tempo e com mais carinho são as que envolvem humor em tempos de guerra. Talvez o maior antídoto contra desumanização e a indiferença.

Quando nos rimos com alguém conectamo-nos. Queremos-lhe bem. Humanizamos a ligação. Criamos laços.

Das melhores memórias da minha vida: Humor em tempos de Guerra.

O antídoto.

2 Responses
  1. Rita Luz

    Obrigada pela partilha, é bom ler aquilo que se sente. Da minha parca experiência com os MSF (2 missões no Afeganistão, gin-obs), tento essencialmente guardar isso comigo, os momentos de boa disposição, de historias de sucesso, de dificuldades ultrapassadas… sem nunca esquecer tudo o resto. E é isso também que transmito quando me perguntam: “correu tudo bem?” depois de um indeciso “humm…”

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