Prefácio – Triângulo de Guerra

O Oposto

A origem do ser humano enquanto espécie terá sido há cerca de 5-7 milhões de anos atrás, no Rift Valley algures naquilo que é hoje a Etiópia, Quénia, Tanzânia, … e a origem das civilizações humanas foi na Mesopotâmia, há uns 5.000 anos, naquilo que é hoje a Síria, o Iraque, Irão e Turquia. Daí que sempre me questiono, a partir de quando começamos a contar a nossa história? Sabendo que as peças do passado montam o puzzle do presente, onde vamos buscar as respostas à pergunta: quem nós somos? Vamos buscá-la à história do nosso território? Ou à mistura dos nossos genes?

Por onde começamos? Ou por outra, até onde vamos? Até onde estamos dispostos a ir com honestidade e coerência na busca das nossas origens, e na construção da nossa história para que saibamos quem nós somos?

Começamos no 25 de Abril? Ou no início da nossa República? Ou na restauração da independência? Na expulsão dos Mouros de Portugal? Ou no D. Afonso Henriques? E porque não na sua mãe? E porque não nos Árabes que aqui estiveram tantos séculos? Comecemos na Mesopotâmia? Ou vamos a África mesmo à origem do Homem?

Somos todos filhos da mesma história e no entanto irmãos com tantas desavenças… Insistimos tanto em vincar as pequenas diferenças, ao invés de valorizar o tudo que nos torna iguais… Como parecem estar tão perto, e no entanto são o Oposto… o Amor e a Guerra.

Deixamo-nos levar por rótulos que nos distanciam, que inevitavelmente levam a que sempre apareçam um “nós” e os “outros”. Temos uma língua, uma cultura, uma história, uma cor dominante e se quiserem até uma religião! Mas qual é o mal de todas outras? Línguas, culturas, histórias, cores, religiões: porque precisamos de pisar nos outros para que nos orgulhemos de quem nós somos? Porque insistimos em cavar fossos, ou erguer muros a tudo que estranhamos ou desconhecemos?

Não tenho dúvidas porque já a vi muitas vezes e de muito perto, que a Guerra é o expoente máximo desta disparidade e desconexão. Tirar uma vida é o maior acto de egoísmo de um ser humano. Aqui se perde tudo que nos une, toda a fraternidade, negando o passado em comum, desprezando os que nos são iguais só nos leva a perder o amor por nós próprios.

Mas não é só com a ponta do dedo que se prime o gatilho… É na nossa cabeça e no nosso coração ao apoiarmos ou aceitarmos ou negligenciarmos, todos os que matam, todos os que guerreiam também em nosso nome… que também tiramos vidas! Há diferenças em premir o gatilho ou permitir que alguém o prima por nós, mas ambas têm que ser reconhecidas como formas de assassínio… Nunca nos podemos esquecer que todas as pessoas e cada uma delas tem uma história de vida igualmente importante à nossa e aos nossos entes queridos.

Permitirmo-nos compreender as diferenças é um amealhar de riqueza, porque o carácter, a bondade, os valores são apátridas e intemporais. A compreensão, a projecção, a admiração e muito menos a beleza, não reconhece fronteiras, politicas ou religiões… Amar ultrapassa tudo, se é que há algo para ultrapassar.  

Corpo e mente amam, desde os confins da história… Porque se criam regras para o amor? Quem é que inventou e porque é que se alimentam estas divisões que potenciam ódios e impedem amores?

Para mim é bem claro que o Amor e a Guerra, estão nas antípodas de tudo que nós somos… são o Oposto e só podemos escolher um…  eu prefiro o Amor.

Esta história de Amor e Guerra levou-me a reflectir, imaginar e questionar algo de fundamental que faço por me relembrar e reforçar todos os dias: De que serve tudo o que nós temos se perdermos a humanidade?

Gustavo Carona

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