Facebook versus Instagram

Isto é uma mistura de muita coisa. Do peso das redes sociais nas nossas vidas, das utilizações úteis e as tóxicas para o indivíduo e para a sociedade, e a perda de força do Facebook para o Instagram que a mim me entristece.

As redes sociais têm um potencial de utilização maravilhoso, mas também exponenciam algumas perversões humanas a escalas nunca antes imagináveis. E nem vou entrar por uma reflexão também muito importante sobre a forma como somos manietados por grandes poderes influenciadores, Cambridge Analytica, Brexit, Trump e por aí fora… Vou-me restringir à utilização mais mundana da maioria das pessoas.

Sempre fui da opinião que são apenas ferramentas que expressam a natureza humana, que pouco mudou desde a idade das cavernas. O bem e o mal que lhe fazemos está sempre dentro de nós e não na ferramenta. A mim já me serviu para fazer das coisas mais bonitas que já fiz até hoje, como por exemplo o projecto/livro “1001 Cartas para Mosul”, que sendo algo bem real foi uma criação 100% sustentada no poder das redes sociais, neste caso do Facebook, sem o qual não teria feito nada. Também já me serviu para coisas muito más, para além da vaidade que é um cancro e uma âncora para o caminho da felicidade, das horas perdidas a ver merda que não serve nenhum propósito, da concepção errada que a minha opinião é muuuiiiitttooooo importante (que não é, é só mais uma!), da expressão da malícia de pessoas que criam perfis falsos com o propósito de me magoar, ou da vigilância patológica que alguns e algumas praticam… há muita coisa nefasta atrás de um teclado. Portanto a crítica, a isto ou aquilo, será sempre a crítica ao uso que lhe damos para o bem e para o mal.

Porque é que o crescimento do Instagram para o Facebook me entristece? Porque acho o Instagram mais fútil.

Apesar da maioria das pessoas com o tempo se ter consciencializado que não dá para discutir política, religião (tenho um texto na cabeça sobre ser ateu, que um dia vou escrever) e até mesmo futebol… ainda assim o Facebook permite e potencia uma discussão baseada em conteúdos. Opiniões, artigos, notícias, discussões que nos levam quase sempre a aprender alguma coisa, e que serve também como um excelente barómetro da sociedade pensante.

Ora o Instagram são fotografias. O que leva o foco da atenção para a imagem, para o bonito versus feito e pouco mais. Claro que há formas inventivas de fazer coisas incríveis com o Instagram… Mas a existência do Instagram pede muito fotos de bikini com frases bacocas pseudo-inspiradoras, e com comentários das amigas: “estás linda”, “não, tu é que és!”. É um culto de vaidade infinita que choca ao ponto de me fazer querer escrever este texto. Parece-me que as “stories” nos levam ainda mais a pensar no EU, EU, EU que é profundamente preocupante, e que devemos todos tentar combater. Sim, dá para ver notícias e fotografias da Amazónia a arder, ou das greves pelo clima, mas já não proporciona leitura, ou contra-argumentação e troca de conteúdos. Fica-se com a sensação que muitas pessoas viajam para o Instagram, ao invés de viajar de coração aberto e por acaso sai uma foto ou outra dos bons momentos.

Eu não me sinto polícia da moral, e talvez esta opinião esteja enviesada por gostar de escrever e não ser bonito J , mas sinto que o crescimento do Instagram é proporcional ao esvaziamento de pensamentos de muitos de nós.

Eu nunca sou apologista do discurso que “está tudo mal”, e “o mundo está perdido”, mas acho que se as pessoas querem ser tratadas como mais do que uma imagem de plástico, deviam fazer por isso.

Eu uso as duas. Mas não tenho foto para este texto, e há uma que não me deixa escrever isto até ao fim 😉

E no fundo, no fundo o que importa é não fazermos mal a ninguém, se possível ajudar alguém todos os dias, e ser feliz! E no final seremos todos poeira J.

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