4. Viagem para Timergara

Acho que vai ser uma grande desilusão para os meus, porque eu também fiquei bastante desiludido… A minha ideia inicial de contar histórias baseadas em fotografias, colapsou por completo… Porque nestas zonas há uma tolerância zero por parte dos MSF no que às fotografias diz respeito… Porquê? … talvez mais tarde vos venha a explicar os perigos que nos rodeiam…

Finalmente a caminho do minha casa e do meu trabalho… Estou mesmo desejoso de começar… E também desejoso da viagem, de ver o país, as pessoas, as áreas rurais, as montanhas… Estou bastante cansado porque este jet lag não me larga… Mas sei que esta é uma das duas hipóteses que tenho de ver alguma coisa deste país e por isso recuso-me a fechar os olhos um segundo que seja… Para que possa levar comigo o máximo que a minha memória o permitir, porque a minha máquina fotográfica não vai levar nada…

Eles adoram decorar e ornamentar os seus veículos… Os “tuk-tuks” e as camionetas já chamam a minha atenção, mas quando vejo os grandes camiões…. uuuaaaauuuuuu! É como uma exibição a céu aberto… as cores, os desenhos, as decorações, os trabalhos nas madeiras onduladas que são como que uma “poupa” dos tempos do Elvis fazem as delícias aos meus olhos… Os camiões mais “cool” que alguma vez vi… Queria tanto tirar fotos… mas não posso.

Chegamos à fronteira da Província do Noroeste ou KPK… e adivinhem? Um checkpoint gigante! Todo o tipo de detectores e dispositivos que nem sei bem para que servem, revistam os carros que foram uma fila enorme… Eu fico feliz por poder parar para observar a população e as pequenas loginhas de rua e os mercadinhos de todo este planeta completamente novo para mim, que faz que com o melhor da minha imaginação nem sequer se aproxime daquilo que estou a ver! Ao som da música Pashtun que me faz imergir na viagem… começo a abrir a janela do carro… mas o condutor do carro interpela-me: “Não se pode abrir a janela… regras dos MSF… em algumas correntes do Islão não se pode ouvir música, e seria um sinal de desrespeito para alguns se num carro dos MSF, se ouvisse música a sair do carro!” … Todo um mundo distante que nunca parou de surpreender… Desligo a música para poder abrir a janela, para sentir mais de perto tudo o que me rodeia… As vidros são à prova de bala, mas acho que não há crise se os baixar…

E depois as montanhas começam a aproximar-se e paisagem é deslumbrante… Até os Paquistaneses param o carro para tirar fotografias… Rochosas mas verdes, montanhas enormes com vales profundos, que oferecem vistas panorâmicas de lugares dos mais bonitos que já vi… Os picos mais altos começam a exibir-se atrás, cheios de neve… e o meu sentimento é de gratidão por tudo o que os MSF me permitem ver do mundo, e ainda estou no início da minha missão…

Após passarmos um rio muito largo mas algo seco, no meio das montanhas altas e infinitas, o condutor aponta para um local a uns Kms de distância e diz-me: “Aquilo é Timergara!”

Tenho uma sensação de deja vu sentimental, quando outro condutor no coração de África me disse o mesmo quando estava a chegar a Masisi no Congo… Fiquei algo triste que a minha viagem estava a chegar ao fim e que a partir de agora os meus olhos serão murados, mas feliz pela energia que este lugar, que agora chamaria de casa, me transmitia…

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