11. Noites no Bunker

É sempre difícil transmitir uma ideia real, do que é este cenário tão intenso que nos faz sentir que estamos no centro do mundo, onde todas as vivências parecem eternas e todos os momentos têm um potencial descritivo infinito. Estamos a meia dúzia de Kms das linhas da frente, lado a lado com grupos bons e maus de homens bem armados, onde até uma ida ao WC parece ser uma história a contar.

A minha ideia é pôr-vos lá, levar-vos comigo nesta viagem. Um gajo normal, igual a todos os outros, que por um motivo ou outro se encontra no meio do inferno, mas também no meio de uma população muito bonita… e é sobre eles que vos quero escrever.

E é nesta viagem pelas pessoas que se conhece um país, ou pelo menos parte dele. Foi tudo mau? Não. Tive momentos incríveis de pura felicidade. Partilhávamos a nossa casa com alguns guardas (sem armas, claro), motoristas e tradutores para as idas urgentes ao hospital, e ainda o cozinheiro.

Os Sírios têm muita melodia. Adoram música, poemas, ditados e anedotas. E eu aguardava pelas alturas em que os condimentos certos se juntavam, para a mistura ser explosiva. Sou como uma esponja, pronta a absorver tudo o que me derem… Os guardas que eram os mais engraçados, os tradutores para que eu percebesse o que se dizia, e o cozinheiro que além da comida maravilhosa adorava preparar a Shisha, para que a conversa fosse fumada e perfumada pelos diferentes sabores frutados. E assim ficávamos horas na cozinha, porque era onde se podia fumar, a debater vários temas fulcrais para quem está no meio de uma guerra: a comida árabe, música árabe com videoclips de mulheres de muita pele à mostra, histórias de vida antes da guerra, os sonhos e de cada um… e anedotas! Cada dia que passa, mais gosto de ouvir árabe, principalmente pela forma de histórias contadas. E cada vez mais me encantava o seu sentido poético e humorístico. De sorriso largo e maroto, com jogos desta língua tão rica, cada história tinha 2 momentos altos… O 1º decorrente da cadência normal da conversa, e o 2º quando alguém tinha a bondade de me traduzir em que nos riamos todos outra vez!

A Shisha rola, a conversa flui e o meu coração cada vez mais se enche de magia, de vivências de um país em lágrimas de sangue com uma alma bonita e inspiradora. E esta empatia progressiva de quem mergulha nas histórias das pessoas, leva-nos a uma conclusão muito óbvia mas que entra com estrondo nas nossas cabeças: Eles são iguais a mim! E o que difere a Síria do meu querido Portugal para merecer este fado?

Um dos tradutores que eu adorava, um dia contou-me uma história que eu por acaso até já tinha ouvido falar… Semanas antes de eu ter chegado àquele hospital, num belo dia uma mulher grávida insatisfeita com a opinião de uma enfermeira estrangeira, tira uma arma das suas saias e aponta à dita enfermeira com ameaças de morte bem claras… E o que este agora meu amigo sírio fez, foi prontamente pôr-se entre a arma e a enfermeira… e disse-lhe: “ Se a vais matar, matas-me primeiro a mim…. porque no fundo é isso que estarás a fazer… matar-nos a todos nós, teus compatriotas!”

Já alguém se meteu à frente de uma arma por vocês? Conhecem alguém que o faria? Um quase-desconhecido que dava a vida por vocês, conhecem?

Isto é muito forte! Arrepio-me cada vez que penso nisto…

São este tipo de pessoas de que vos falo, que encontram um sentido poético na vida, que lutam com tudo o que têm mas sem armas, e fazem-no com um sorriso na cara…

Faltarão sempre as palavras, para descrever este caracter, este código de honra… e um humor tão generoso, que eu tive o privilégio de absorver aos poucos.

As passagens pelo Bunker são aqueles momentos em que a capacidade de aceleração do nosso coração, não se esquece. Mas haviam grandes diferenças do dia para a noite. De dia, no hospital eram mais curtas, mas mais intensas… quase sempre motivadas pela passagem de um avião ou helicóptero, em cima das nossas cabeças… o medo era asfixiante, mas curto. Quando os bichos de metal voadores saiam do alcance dos nossos ouvidos tudo voltava ao “normal”… De noite eram os bombardeamentos que vinham do outro lado das linhas de conflito. Se eu bem percebi a ciência dos bombardeamentos que eram quase diários… não havia muita ciência! De uma forma que sempre me pareceu aleatória caiam mais perto ou mais longe de nós… em salvas de muitos…ou alguns… ou às vezes mais… bem, eram salvas de BUM, BUM, BUM… e quando as paredes estremeciam, começávamos a pensar em descer para o bunker da casa… e claro aquele friozinho na barriga apertava, embora aparentasse uma certa calma entre nós…

E ali foi, naquela cave/bunker gelada ao som da pior música que se podia desejar, que tive alguns dos momentos mais felizes da minha vida… Pode parecer estranho mas mais do que nunca estava onde queria estar, e a criar laços com pessoas magníficas… e assim foram algumas horas que pareceram vidas. E vidas bonitas! Eramos aí uns 20, sem internet J … naquele tipo de ambientes, tipo à volta da fogueira no meio do nada… Embora aqui a fogueira fosse muito grande, e o nada era todo um país… Mas assim era, conectados apenas pelas pessoas que ali estavam, que ali eram o que eram, sem maquilhagem… A troca de olhares é mais verdadeira do que nunca, e mesmo com aqueles que pouco falávamos era como se tudo soubéssemos uns dos outros. É verdade no seu estado puro. E no meio dos bidões de água e malas de mantimentos que estão pelo chão, caso ali ficássemos uns dias, lançam-se umas cartas para que os pensamentos fujam do BUM, BUM, BUM… Mas as cartas não me agarraram muito tempo, e meio que sem saber como juntei-me ao grupo da cozinha…

Mal entro neste círculo de malandros descontraídos, os meus sorrisos atropelam-se uns em cima dos outros… E mesmo quando ninguém se dava ao trabalho de me traduzir esta alegria atraia-me e contagiava-me… E porque não dizer também que a conquista do meu sorriso permanente parecia ser para eles um trofeu mais valioso que o ouro… E isto é mágico! Não se explica! E as bombas continuam a cair ao seu ritmo. Aleatório. E de história em história, a orientação da conversa parte para a galhofa pura e dura. Há um dos guardas que não diz uma palavra de inglês, mas que falava como ninguém a língua dos risos e sorrisos, que se deixava embalar em jeito de aquecimento até ganhar o palco. Quando ele começava a falar com o seu teatro facial eu desmachava-me logo a rir… tinha espasmos abdominais de riso fortíssimos, ao ponto de achar que era mais perigoso rir assim do que estar perto das bombas 😉 . E aquela noite mais do que nunca, vi que numa guerra também vemos o melhor dos melhores…

Foi uma anedota atrás da outra com gargalhadas gerais sempre a dois tempos! Pois eu já em árabe estava a chorar a rir, e mais ainda quando percebia a piada… Mas como nos rimos dos/com os que se estão a rir por si só, quase que nem precisava de tradução… E todos eles, à segunda, quando vinha a tradução, se matavam a rir pelo contágio do que eu me ria, e pelo orgulho das suas piadas árabes que são também um embaixador da sua bonita cultura e língua! E esse rock star das gargalhadas deixava réplicas nos dias seguintes das suas estrondosas piadas… Nessa noite “levantou o estádio” com uma anedota que para minha grande tristeza já não me lembro, mas sei que envolvia “um burro”, e “ pimenta no rabo”… E lembro-me também que pimenta em árabe se diz algo como “flifli”… E depois de me levar às lágrimas sempre a duas velocidades com o “flifli”…. nos dias que seguiram esta noite mágica sempre que passava por mim, ria-se e repetia “flifli” apontando para o rabo de alguém! E daí vinham réplicas das gargalhadas maravilhosas! E por isso (e muito mais) se criou uma amizade na base dos sorrisos, e sem que saiba o nome dele e sem conseguir ter tido uma conversa… adoro-o até hoje… e a muitos outros.

Naquela noite, embora me faltassem horas de sono, havia uma parte de mim que não queria que as bombas deixassem de cair… assim como há uma parte na guerra que faz sobressair o que de mais bonito as pessoas têm.

Há uma parte de mim que ficou na Síria… muitas lágrimas… mas também muitos sorrisos!

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