10. Pátria Perdida (2)

(continuando)

O lema que me domina é fazer o melhor com o que está ao meu alcance… Ainda que a complexidade e a dimensão do conflito da Síria, ultrapassem os piores dos horrores a cada dia… A nossa função não é política…é humanística. Não vamos à procura dos “porquês”, vamos salvar vidas… Vemos a maldade do homem no seu expoente máximo, mas vemos também o melhor de um povo que nos piores momentos deixa vir à tona uma beleza extrema de actos, cuja a coragem e inspiração me marcarão para todo o sempre… E desistir nunca será uma opção.

As emoções saíram mais cedo do que eu esperava, mas ainda tenho muito a fazer… A viagem com este doente com o traumatismo crânio-encefálico (TCE), até à fronteira com a Síria é curta mas perigosa… porque passamos por uma área das montanhas bastante exposta aos bombardeamentos… Preparo o material e vou com o condutor da ambulância e o tradutor… que ultrapassa largamente as suas funções e muitas vezes me ajuda no meu trabalho… Dentro da ambulância aos solavancos, com um doente anestesiado e totalmente dependente de mim para que a chama da sua vida se mantenha acesa, pouco tempo tenho para pensar sobre esta viagem… e a viagem dentro da viagem do que estou a viver! A estrada é má e já foi também vítima de muitas bombas… o que faz com que eu ande às cabeçadas e encontrões na ambulância… Tenho as mãos ocupadas na ventilação do doente… e pouca capacidade para me defender das movimentações erráticas deste veículo… mas queria muito que aquele pai não chorasse a morte deste filho… Com o tubo na traqueia conectado ao Ambu (saco de ventilação), as minhas mãos são quase automáticas nesta ligação umbilical para o fazer respirar… O tradutor é incansável nestas manobras difíceis, vai segurando o doente para que não caia da maca, e dando os medicamentos às minhas ordens, porque eu não conseguia libertar as mãos… Penso se não estaria a fazer uma “aposta” errada ao investir tudo neste doente… expondo-me a riscos e largando o hospital durante 1 a 2 horas…

Chegamos à fronteira… eu já tinha ouvido falar, mas não estava a acreditar quando vi o desafio que tinha pela frente… Esta fronteira era clandestina e implicava uma passagem pelo arame-farpado. Quando chegamos já lá está uma ambulância turca (uffff…. que alívio) e meia dúzia de militares turcos a certificarem-se que ninguém passa… a não ser o doente. Da estrada onde ficou a ambulância até à fronteira ainda eram uns 200 metros… em que tivemos que levar o doente em maca com muito cuidado no equilíbrio para que eu o conseguisse ventilar sem acidentes… Mas a travessia do arame-farpado foi hercúlea… Passa o condutor, e depois o doente sempre suspenso, e depois o tradutor…sempre comigo pelo meio a não poder largar o doente e em pânico com o medo que o tudo da traqueia saísse naquela altura com algum movimento em falso… Os militares turcos e as raparigas paramédicas turcas aproximaram-se mas não ajudaram até termos transposto na totalidade o dito obstáculo… Parecia-me quase uma posição política e não de má vontade como quem diz… “nós só trabalhamos a partir daqui… trazê-lo até cá e convosco!” …. E abro aqui um parêntesis para dizer que a Turquia, recebeu quase 2 milhões de refugiados Sírios, e tratou nos seus hospitais muitos milhares… sem qualquer análise política da minha parte: RESPECT!

E depois desta espécie de Jogos Com Fronteiras versão hardcore…. vamos em direcção à ambulância turca, sempre sob o olhar próximo e atento dos tais militares… E eu pergunto às raparigas paramédicas, em inglês “Quem é a médica?” … A resposta é curta: “No English!” …. e eu pensei com os meus botões: “F#%#$”&” –se, isto vai ser bonito!”… O tradutor tenta em Árabe… e as duas respondem em Turco que não falam Árabe…. e o tradutor confessa-me que também não fala Turco! E eu a pensar: “ tanto esforço, e como resolvo este imbróglio?” … eu tinha muito para lhes explicar e informação clínica a passar, vital para o doente! Nisto um dos militares que ouvia as conversas aproxima-se de metralhadora em punho a dizer que fala Árabe e fala Turco… E eu pensei que ainda que longe do ideal ai está a solução a 4… Eu falo com o tradutor (T) em Inglês, que fala com o militar (M) em Árabe, que fala com as raparigas da ambulância (RAs) em Turco…. e depois tudo de volta neste fantástico quadrado de comunicação…

Eu- T- M- RAs : “Quem é a Médica?”

RAs- M – T – Eu: “não há médico!”

Eu com os meus botões: “#$%&/”!%&#&#/#(#/”&”&%#$)”#$!%”/”!!!!!! …. era crucial ter um médico.”

Eu – T – M – Ras: “Vitima de TCE grave, sem outras lesões, anestesiado e ventilado… A quanto tempo estamos do hospital? Como vão ventila-lo?”

RAs – M – T – Eu: “Adrenalina?”

Eu com os meus botões: “#$”%”&#/”%”%”%….. o que é que isso tem a ver com o que disse???”

Também o que poderia eu esperar daquela conversa com militares a traduzir medicina… E com isto o militar estava a ficar nervoso, e a dar sinais que não estava a gostar muito desta conversa e do tempo que estávamos a demorar… e eu por norma não gosto muito de discutir com quem está com o dedo no gatilho… E eu sempre a ventilar o doente… porque se parar, ele morre.

Entro para dentro da ambulância com o doente e vejo que lá têm um ventilador automático… alguma coisa que corre bem finalmente!! E programo o ventilador, e conecto-o ao tudo da traqueia do doente… Já estou com as mãos livres, o que acrescenta bastante às minhas capacidades de comunicação nesta encruzilhada na fronteira… Dou o melhor da minha linguagem gestual para explicar a estas 2 paramédicas os pontos chave… mas com um desconforto muito grande… porque a partir do momento em que eu o anestesiei e lhe pus o tudo na traqueia há demasiada coisa que pode ser fatal para o doente sem as pessoas competentes como era o caso…

Os minutos a passar… os militares cada vez mais stressados e eu sem tempo e capacidade para lhes explicar tudo o que deveria… Posicionei a cabeça do doente e o tronco como tem que ser nestes casos, e dei-lhes para as mãos os medicamentos que tinha… juntando algumas dicas de como os usar em linguagem gestual… Mas a probabilidade de elas estarem a perceber é de 1 para 1 Milhão…

Saio da ambulância com um nó na garganta… com a sensação que enviei aquele doente para um buraco negro… com tudo que lhe podia acontecer durante a hora/hora e meia que seria até ao hospital onde encontraria pessoas que podiam dar continuidade ao que eu comecei… Mas chegaria ele lá com vida? Consigo pensar em dezenas de coisas que poderiam correr mal nesta viagem sem que aquelas raparigas pudessem fazer alguma coisa… com o imenso respeito que tenho por esta profissão…

Enviei o doente para um buraco negro… e dadas as circunstâncias estava claramente arrependido com as minhas decisões como médico…

Passado novamente o arame-farpado, e já com os pés outra vez em território Sírio tomamos um café rápido que para mim foi um misto de descompressão e arrependimento… Mas o sorriso do homem que me vendeu o café, numa tenda de plástico num dia cinzento e frio, aqueceu-me a alma… e deu algum conforto à minha pesada consciência…

Voltamos para trás e eu vou a contemplar cada centímetro desta estrada, e dos infinitos campos de deslocados de tendas de plástico que afloram a estrada nas zonas onde as bombas caem menos… É toda uma viagem de sentimentos e pensamentos… tanta guerra… tanta gente… tanto sofrimento… e para não desesperar na minha sensação de impotência, tento levar o meu foco para o que EU posso fazer…. e que se todos pensássemos assim, tudo melhorava.

De regresso ao hospital, primeiro ouço uma descompostura da minha chefe por termos perdido a comunicação radio durante muito tempo… Eu dou-lhe razão e peço-lhe desculpa pela preocupação, mas a cabeça estava noutra sintonia… no doente.

Ainda temos alguns doentes para operar e foi um dia muito longo… mas entre pernas partidas e estilhaços a desbridar… ninguém corria risco de vida… e as emoções finalmente iam encontrando alguma paz…

Ansiava por notícias do doente que levei à Turquia… e quando passado uns dias recebemos o feedback que tinha sido operado por neurocirurgia… saiu-me um peso do peito… “Não o matei!” que alivio, e que bom que estavam a tratar dele… embora desconhecesse os detalhes da cirurgia e da sua condição clínica e prognóstico… já não parecia um buraco, nem muito menos negro…

Passados muitos dias, e com muitos outros doente pelo meio… recebo a notícia que esse doente morreu… Fiquei muito triste, saber que as lágrimas do seu pai eram mesmo para ficar… e que todo o meu esforço tinha sido em vão…. nesta Pátria Perdida!

Mas fiz o que tinha que ser feito… às vezes ganhamos e outras perdemos… o importante é seguirmos no caminho certo… e para minha o caminho certo é defender todas as vidas como gostava que defendessem a minha e centrar as minha acções naquilo que EU posso fazer.

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