10. Até sempre Afeganistão

Fechando a página sobre o Afeganistão. Às vezes tenho que me perguntar e puxar bem atrás as minhas memórias para que me recorde porque é que eu comecei a escrever… E talvez misturando e baralhando uma série de sensações eu diria que o ponto em comum em toda a minha escrita, e a que acho que me vou mantendo fiel e honesto, é tentar fazer com que possamos ver que todas as vidas deveriam ter o mesmo valor… Mas passamos todas as nossas vidas numa deturpação emocional, que nos leva a crer que algumas vidas valem mais do que outras… e eu gostava de lutar contra isso! No fundo, no fundo, escrevo para que se tenha mais honestidade e justiça na forma como olhamos para o mundo… Sabendo que crescemos por defeito com medo do desconhecido, e encontramos conforto ao afastarmo-nos de realidades que desconhecemos, e por isso as desprezamos…. Conseguimos condenar os terríveis cobardes responsáveis pelo ataque às Torres Gémeas que mataram cerca de 3.000 pessoas, mas esquecemo-nos de condenar, moral e politicamente, os que sem saber o que faziam nos levaram para a guerra do Afeganistão, com já mais de 15 anos e cerca de 500.000 mortos… O maior esforço que tenho feito nos últimos anos é conter a minha revolta, perante esta falta de honestidade e justiça…. E tudo isto porque do lado de lá, está um povo que não conhecemos, que diabolizamos, que nos convém descrever como um monstro, para que consigamos dormir descansados…. Mas não é verdade… do lado de lá está um povo com tantas ou mais boas pessoas do que do lado de cá…. E se, neste caso, a cor da pele até nem é grande diferenciador…. as vestes, a língua, a cultura e claro, a religião que professam acopladas a uma enorme dose de subdesenvolvimento, resultam num distanciamento emocional enormíssimo…. E por isso escrevo, porque tive a sorte e o privilégio de lá estar… e não conheço ninguém que lá tenha estado, com coração aberto e algum sentido de humanidade que não tenha chegado a conclusões semelhantes às que eu fui construindo na minha cabeça… Está na altura de, antes de fazermos julgamentos, ouvirmos a história dos dois lados… Porque todos sofremos a morte dos nossos entes queridos com a mesma intensidade….

E num belo dia uma “bomba” caiu na praça pública! Mas esta é daquelas que explode aos poucos mas com muita intensidade: diz-que-disse, que em Bagram, na maior base militar dos americanos a norte de Kabul, foram vistos vários exemplares do Corão a ser queimados. Se me perguntarem a mim se queimar um livro é motivo para deixar alguém furioso, eu diria que não! Mas este livro é sagrado para muitos e penso que devemos respeitar isso. A explicação por parte dos americanos parecia fazer sentido…. que os livros queimados estavam a ser usados pelos prisioneiros para comunicar entre eles, no entanto a fúria do povo Afegão fez-se sentir por todo o país, com manifestações em todas as grandes cidades contra a presença das forças aliadas no país. Triste é que, quando o povo está assim a fervilhar pela volatilidade e clima de hostilidade que pairava no ar, nós não podemos sair de casa por questões de segurança, e é uma dor de alma saber que com esta restrição de movimentos, várias vidas podem perder-se, por nós não estarmos no hospital… Foram vários os telefonemas que os enfermeiros que trabalhavam comigo me iam fazendo para gerir casos mais difíceis… mas não é a mesma coisa… perdemos algumas vidas, assim como morreu gente por todo o país nas ditas manifestações que muitas vezes descambavam em violência, pela imprudência de se terem queimado os Corões…

E foi isto, e acima de tudo isto que aprendi ou reaprendi, com a minha vida no Afeganistão… Algo enojado pela dificuldade que as pessoas têm em empatizar com quem é diferente… A facilidade com que se deixam manipular por alguns líderes, conspurcados numa imoral e ignorância que leva grandes e pequenos exércitos a guerras que deixam rastos de dor na história dos nossos dias… Faço um esforço por não deixar transparecer nenhuma análise política… mas às vezes torna-se difícil para quem acredita que uma vida é uma vida, por vezes torna-se demasiado gritante… e quando “lá” estamos tudo isto se torna ainda mais evidente…. Porque nós somos a mesma pessoa, mas por vezes vemos o “teatro” atrás do palco… quando sentimos o pulso ao povo bem de perto, e ouvimos os ecos das suas emoções…

Quase todos os dias éramos sobrevoados por máquinas de guerra dos Aliados, e nesses dias depois da queima dos Corões, foi dia e noite… aprendemos até a distinguir os diferentes tipos de aviões e helicópteros, pelo barulho com que nos contemplam… Nunca pensei aprender estas coisas, pois odeio guerra e tudo o que tenha a ver com guerra… Mas como consigo reconhecer a espectacularidade de qualquer grande desastre natural… foi no regresso a Kabul no final da minha missão, que fiz um “pitstop” no aeroporto de Kandahar onde vi dos maiores espectáculos da minha vida… O aeroporto de Kandahar era em conjunto civil e militar o que, em boa verdade, quer dizer nesta fase do campeonato que é 99% militar. O nosso pequeno avião teve que aqui parar e fazer troca de mercadoria, e os cerca de 15 passageiros tiveram de sair do avião e ficar na borda da pista à espera de seguir viagem… Foi cerca de uma hora, em que eu estive embasbacado a ver aquele festival de aviação militar, jactos, caças, grandes, pequenos, helicópteros de todos os tamanhos e feitios, drones em bandos…. levantavam e aterravam de seguida sem parar, em grupos ou isolados…. absolutamente incrível… De olhos bem arregalados, pois as regras de segurança são rigorosíssimas proibindo qualquer captação de imagem, e assim tive de guardar tudo na minha memória…. Mas na minha memória ficaram também os sentimentos que aquela maravilha da tecnologia militar me fez sentir… Enquanto os drones aterravam aos bandos alinhados em V, eu perguntava-lhes(me): Quantos mataram hoje? Correu-vos bem o dia? Quantos Taliban mataram? E quantos inocentes? Quantos ficaram para a estatística dos “danos colaterais”? Dos “Ooooppsss enganámo-nos no alvo”? E mulheres e crianças quantas mataram? Será que mataram algum amigo meu que trabalhava no hospital? Será que mataram algum dos meus doentes que me custou tanto a salvar? Mas não tive respostas….

Em Kabul ainda estive uns dias, a tratar da burocracia do visto de saída…. Deu ainda para me fazer útil num pequeno hospital dos MSF, e para umas pitadas de “sightseeing” que confirmaram o meu “feeling” inicial: Kabul é das cidades mais bonitas, magníficas e histórica e culturalmente interessantes que já vi… Imponente arquitectura milenar, com um dos bazars mais antigos do mundo, conta bem aquele que foi o cruzamento de tantas culturas, e tudo isto rodeado por uma cadeia de montanhas a 360º, ladeando e circundando aquela que será das capitais mais imponentes que conheci até hoje…

Tinha saudades de todo o meu mundo, da minha família, amigos e da minha ex, que neste momento me esperava na Índia para umas merecidas férias…. e o meu voo era já no dia seguinte… mas alguém não me queria facilitar a vida….

Na véspera da minha partida, somos abalados pela transtornante notícia: um soldado americano em Kandahar (a 200 quilómetros de onde eu estava), num acto inesperado enquanto caminhava pela cidade, sem qualquer contexto bélico, entrou em várias casas, arrastou pessoas pelos cabelos, disparou a arma à queima-roupa, alguns dos disparos na boca das vítimas…. ateou fogo aos corpos e por aí fora…. Matou cerca de 20 civis e deixou outros tantos gravemente feridos, na sua maioria mulheres e crianças, que se encontravam dentro das suas casas, e que foram atingidos por balas que ninguém esperava… Há quem diga que foi mais do que um. Há quem diga que houve actos de violência sexual antes da matança… De qualquer das formas, a versão que ficou escrita foi que o Robert Bales de 38 anos chegou ao seu quartel-general e disse: “I did it!”. Como podem imaginar, o povo Afegão ficou revoltado e saiu à rua em várias cidades a manifestar a sua indignação. E pediam que fosse julgado no Afeganistão… mas como sempre, cobardemente, foi levado para os EUA, para ser julgado e assim ficou com prisão perpétua….

Mas o que mais me entristece neste acto bárbaro é a facilidade com que se relativiza pelos media, e por todo o mundo ocidental a vida de quem vive do “lado de lá”… Talvez porque não existam filmes de Hollywood a mostrar a vida destas pessoas… E como tal para nós são estatística!

Sendo Kabul o foco de todas as tensões políticas, anteviam-se demonstrações populares com um enorme potencial explosivo…. E quando assim é, pelo elevado risco de incidentes de violência, os MSF decretam que ninguém se mexe! Ninguém sai de casa! Zero movimentos! Então e eu que tinha que ir para o aeroporto? Se só dependesse de mim, estava tranquilo… Mas tinha a minha namorada à espera na Índia, com voos marcados, etc e tal….. Seria dramático ficar preso em Kabul uns dias…. ainda para mais com a cidade “explosiva”, graças ao Robert Bales… Primeiro os MSF disseram-me que nem pensar… até me vieram as lágrimas aos olhos… rebentar com os meus planos e dela, explicar à minha família que não podia sair do Afeganistão durante uns dias, porque o povo está na rua furioso com o mundo inteiro! Mas depois de reflectirem, os MSF deixaram-me sair para o aeroporto às 5.00 a.m. bem antes da cidade acordar para não correr qualquer risco… Se sair da guerra e reencontrar a pessoa que eu adoro passados três meses, já eram motivos para uma libertação excessiva de adrenalina…. todo o contexto do momento nem me deixou dormir! Saí de casa de noite, regelado com -20 e tal graus, e com um nevão soberbo…  Como sempre colado à janela do carro, para levar comigo tudo o que conseguir reter…. Nas paredes dos edifícios os desenhos são artísticos, mas não são grafitti…. são rajadas de balas que contam muitas histórias… Impressionante também a quantidade de gente que passa a noite na rua com aquele frio, juntinhos e à volta de uma fogueira… E à medida que a luz do sol vai entrando, Kabul exibe-se esplendorosa como nunca… que cidade tão bonita bem na cordilheira do Hindu Kush!

Sem incidentes, cheguei ao aeroporto, que não deixa dúvidas que estamos em guerra e já preparado para os dias de confrontos que se avizinhavam…. Homens armados, tanques de guerra, são a face do aeroporto de Kabul. Perdi a conta aos “checkpoints” de segurança, cães, detectores de metais, RX…. tudo, várias vezes! Esperei uma hora a mais para entrar no avião por causa do nevão… e dentro do avião esperámos ainda mais… Dúvidas quanto à possibilidade de o avião levantar… e cada vez nevava mais… Passou-me a vida toda pela cabeça. Se eu não levantasse, ficava retido no aeroporto, talvez uns dias, sabe-se lá…. Parecia que a guerra estava a sugar-me para dentro dela e de lá não me queria deixar sair….. ufffff…. que tensão! Amei aquele país e quero muito lá voltar, mas naquele momento só queria sair dali… E quando, passadas duas ou três horas de espera dentro do avião, este começou a dirigir-se para a pista de descolagem, ouviram-se gritos de alegria de muitos como eu… Ao descolar, a despedida que faço para comigo deste país que despertou em mim tantas emoções, misturadas com uma vontade louca de ir ter com quem eu gosto, e com o alívio de ver a guerra pelas costas…. chorei como se tivesse perdido a minha família toda… é muito intenso! Fica muita coisa acumulada no peito, e aquele era o momento de a libertar…

Já nas maravilhas da Índia, assisti atento às consequências do caso do Massacre de Kandahar… embora apenas como um comum espectador que lê as notícias, sentia ainda que tinha deixado para trás um pedaço de mim, que sofria em aperto as dores daquele povo de quem tanto gosto… e morreu muita gente que se manifestava contra a presença dos Aliados no seu país…

E cinco anos passados ainda lá tenho esse pedaço de mim, com a promessa que um dia vou lá voltar…. deixar outro pedaço…

E agora é tempo de respirar bem fundo e começar a escrever sobre a Síria…

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