2. Preso em Islamabad

5 de Março, 12.00 am , à espera de ir para o terreno… mal posso esperar para começar a trabalhar!

Recomeçando onde eu deixei….

… ao sair do aeroporto de carro, numa viagem de cerca de 30 minutos… A minha primeira impressão: checkpoints militares! Um atrás do outro, pelo menos uns 10 até chegar à casa onde ia passar a noite… E uma vez mais os militares não parecem muito interessados em mim à medida que vamos passando pelos checkpoints…

No dia a seguir, acordo numa casa vazia, e com a ajuda de um guarda chamo um carro para me levar à base dos MSF… Agora de dia retiro as primeiras imagens da cidade… Islamabad é uma cidade muito estranha, criada de raiz para ser a capital, quase sem património histórico, com ruas e avenidas desenhadas geometricamente que delimitam as zonas como se fosse um jogo de computador… A2, F6, G3, etc… mas bem à vista está uma parede de montanhas logo ali nas imediações da cidade, que parecem mesmo uma muralha natural da cidade num dos lados…. The Margalla Hills.

Eu achava que estaria de partida para o meu local de trabalho, mas tive a desilusão de que teria que esperar uns dias até que pudesse ir para Timergara… a cidade que iria chamar casa durante a minha missão… Porque eram umas 5 horas de viagem dura e por isso só uma ou duas vezes por semana partima carros dos MSF de Islamabad para Timergara, e porque eu teria que me preparar aprendendo todas as regras culturais e tudo mais que os briefings nos fazem assimilar sobre como é viver e trabalhar nestes locais tão especiais… E por isso estava algo “preso” em Islamabad…

Passei o dia inteiro em briefings e mais uma vez me apercebi o quão importante eles são… Sinto-me bastante cansado, mas tento absorver toda a informação que me dão…

Briefing da administração: perceber a estrutura do projecto, receber o dinheiro do per diem, visas, papelada, e o documento de Prova de Vida… para o caso de ser raptado… Isto assusta um bocado… mas é apenas uma formalidade…

Briefing do Coordenador Médico: perceber como o hospital funciona, o que é que tem sido feito, o que está por fazer… e muitas outras coisas… E aqui começo a ficar muito entusiasmado com o projecto… A população é altamente carente de cuidados médicos… há toneladas de trabalho a fazer… e por isso estou aqui para dar o meu contributo!

Briefing cultural: uuuffffff…. Não fazem de ideia da exigência e intransigência das regras culturais… É uma das regiões mais conservadoras e fundamentalistas islâmicas do mundo… Não se pode tocar numa mulher, nem falar com uma mulher, nem olhar para uma mulher… (até as estrangeiras que comigo trabalham)… e milhões de outros detalhes… o que faz o nosso trabalho como médicos bastante mais complicado… há tanto a dizer sobre este assunto..

Briefing de segurança: simples… Prisão domiciliária! Casa, carro (por vezes com as janelas tapadas), hospital… e volta. Sem qualquer contacto com a comunidade… frustrante… mas é mesmo assim…

Briefing com o chefe de missão do Paquistão: Muito interessante… compreender toda a complexidade das questões políticas e militares do Paquistão… A região para onde eu vou, na fronteira com o Afeganistão, perto de Peshawar… é de uma complexidade infinita… Em tempos uma zona muito quente da “Guerra Fria”… hoje em dia como todos sabem marcada pela presença dos…. Taliban! Quanto mais sei, menos eu percebo… A relação Afeganistão-Paquistão-USA… intensa! Há coisas que sinto que não devia escrever, neste momento… Mas acreditem quando vos digo… é complexo! E neste momento a situação está muito tensa… mas não temos razão nenhuma para acreditar que podemos ser um alvo a abater… e nosso networking com a comunidade, é muito bom e a aceitação dos MSF é óptima, como organização puramente médica que oferece cuidados de saúde grátis e de excelente qualidade.

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