9. O Melhor Dia da Minha Vida

Muitas vezes, seria para mim muito mais fácil expressar-me em Português, e no que diz respeito a esta história, à forma como a vivi e os sentimentos envolvidos, a minha língua materna tornaria de certeza a história mais interessante… Mas eu sou ambicioso no que toca a espalhar estas mensagens sobre África… e também porque muitas pessoas com as quais eu gostaria de partilhar esta história, não percebem a língua de Camões… por exemplo o meu bom amigo Yaroslav, o cirurgião que trabalhou comigo e com quem partilhei tantas emoções fortes, medos e esperanças… e que também nesta história tem um papel importante…

Cada vez mais, tudo à volta do futebol é sobre milhões, corrupção, violência, etc… mas se olharmos para o futebol como deveríamos, veremos que é algo de maravilhoso com um poder de alcance e impacto inimaginável… Nascido na Europa, viajou pelo mundo inteiro, tornando-se o maior desporto do planeta… e África não é excepção… eles são loucos por futebol de norte a sul… e até nas montanhas em guerra do Congo… o futebol tem um papel importante, ainda que diferente… Pela primeira vez o campeonato do mundo será em África, e isso deixa-me imensamente feliz, e espero sinceramente que se não for Portugal que seja uma equipa Africana a ganhar… África merecia isso e muito mais…

Eu adoro desporto, e preciso de desporto…. e enquanto vivi em Masisi, não tinha muitas opções… nada para fazer… A primeira coisa que perguntei quando lá cheguei foi se era possível jogar futebol em algum lado… Mas ninguém me sabia dizer se era possível… Ia correr o mais que conseguia, com o rádio na mão por razões de segurança… muitas vezes de madrugada… com o nível das nuvens ainda abaixo das montanhas onde eu estava, deliciava-me com a paisagem, a neblina e o nascer do sol… E aí tinha momentos lindos de reflexão antes de ir trabalhar para o hospital… Quase sempre tinha “centenas” de crianças que corriam pedaços do percurso ao meu lado e a toda a hora gritavam: “MUZUNGU!” (homem branco)… Não sei bem porquê, mas a alegria de me verem a correr era imensa, como se ver um homem branco a correr sem motivo nenhum, fosse a melhor coisa que lhes aconteceu naquele dia… Nunca esquecerei estas pequenas maravilhas do dia-a-dia… como os sorrisos, os incentivos e energia destas crianças que corriam comigo… Difícil de descrever, mas saboroso de relembrar…

Mas correr não me chegava, eu precisava de futebol… E continuei a perguntar, até que alguém me disse que havia um campo de futebol nas imediações da cidade… Ficava a uns 7 kms da nossa casa, e já algo fora da cidade mesmo… Mas havia este grupo de rebeldes APCLS (um grupo de Congoleses que luta pelos direitos do Congo e da sua população, fazendo um esforço para que as riquezas do Congo fiquem no Congo)… e cerca de 1000 soldados deste grupo estavam acampados à volta do campo de futebol… Então perguntei ao Phillipe, o meu chefe, responsável pela nossa segurança, se seria seguro dar uma espreitadela neste campo de futebol… E para meu espanto ele disse-me que não havia problema, e que estes homens não são uma ameaça para nós, na verdade que são até bastante amigáveis… Como tal, num belo dia decidi ir lá ver o que se passava, aproveitando uma das corridas… Depois de 15-20 minutos a correr pela estrada principal, tinha que virar à direita começando uma descida sinuosa onde ainda não se avistava o dito campo que estava a uns 2 kms de distância… Com a minha T-shirt dos MSF para me identificar e o rádio se fosse preciso alguma coisa, cumpria todos os requisitos de segurança, mas o meu coração começou a bater mais rápido…. Eu estava sozinho, dirigia-me para o total desconhecido e talvez perigoso…. Até que de repente…. UUaaaauuuuuuu…. A vista do campo de futebol começa a abrir-se à minha frente….

Sinceramente, é difícil de imaginar que no mundo possa existir um campo de futebol tão deslumbrante como este… No meio destas montanhas verdes e imponentes, com uma vista para montanhas até ao infinito… parecia suspenso no verde por magia… quase demasiado perfeito para ser verdade… e eu continuava a correr na sua direcção… e aos poucos as palhotas dos rebeldes desenhavam-se no meu horizonte… e ao aproximar-me comecei a ver muitos deles com as suas Kalashnikovs, a sair das palhotas e a olhar na minha direcção… e aí eu parei para olhar para eles e para o campo ainda longe e de uma posição bem superior… Via muitos Congoleses a jogar futebol, e as minhas pernas tremiam de vontade de jogar também… Mas nesse momento, comecei a ouvir os gritos dos rebeldes ao longe… “Come on!”… “Join us!”… “Have a drink with us!”… E saltaram-me vários pensamentos à cabeça… 1000 gajos com Kalashnikovs a convidar um branco para se juntar a eles!?!…. Tinha prometido à minha mãe que não faria nada de muito estúpido ou de muito arriscado… E senti que estava prestes a falhar essa promessa… Então, retrai-me com medo… Acenei cordialmente para os muitos que olhavam para mim, virei as costas e voltei a correr para casa… Sentia uma grande mistura de emoções, feliz por ter encontrado aquele sítio lindo, mas triste por não ter ido até ao fim, jogar futebol, fazer amigos….

Alguns dias mais tarde, um enfermeiro Congolês veio-me pedir dinheiro para apoiar a equipa de futebol local, para um evento especial no próximo Domingo… dei-lhe algum dinheiro e perguntei com os olhos a brilhar se podia jogar… e porque sou branco e um médico para quem ele de alguma forma trabalhava… ele aceitou… provavelmente com a sensação que acedia a um capricho de um branco com dinheiro…

O dito Domingo chegou, e eu não cabia em mim de tanta excitação… O meu amigo e colega Yaroslav veio comigo, mas apenas para ver… Eu não fazia ideia do que me esperava no campo de futebol… Encontrei-me com o tal enfermeiro no centro da cidade, e assim se fez um grupo que caminhava para o tal campo do paraíso… Havia imensas pessoas que caminhavam na estrada e fui-me apercebendo que iam todos ver o futebol… Começava a sentir que era algo de importante, mas tudo era uma surpresa para mim…

O facto de que havia um grande grupo rebelde acampado no local em causa, parecia perder a importância agora rodeado de tanta gente… Estava uma tarde linda de sol, e ao aproximar-me do campo de futebol fiquei incrédulo com o que os meus olhos iam desvendando… Milhares estavam a ver o jogo que se jogava antes do meu… Todo o cenário ultrapassa a imaginação de qualquer filme… A multidão entusiasmada a envolver o campo, as montanhas carregadas de verde a toda a volta… Queria muito ter tirado fotos, mas pareceu-me que ia ser perigoso levar a máquina…

Quando estava a cerca de 1 km, o barulho da multidão de espectadores ressoava cada vez mais alto… Nunca tinha visto um jogo a ser vivido daquela maneira… Os jogadores eram muito atléticos… E ao estilo africano, os saltos, os voos, os contactos eram bem agressivos, e o público amava essa intensidade… Viviam o jogo como se fossem os gladiadores no coliseu de Roma… Uma forma de viver o futebol completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto na minha vida…

Mas quando eu e o Yaroslav chegamos, por alguns momentos as atenções vieram na nossa direcção… Imagino que não estariam à espera de ver “Muzungus” naquele lugar… Olha-nos fixamente sem vergonha, pois estavam certos que o que viam não era suposto estar ali…

O meu jogo vinha a seguir… e eu já estava a ficar nervoso… era impossível não ficar… Quanto mais ouvia a multidão aos gritos, mais vontade tinha de jogar… A polícia, o exército e os rebeldes APCLS, estão todos responsáveis pela segurança e controlo da área de jogo, e distribuíam bastonadas a toda a hora naqueles que pisavam a linha do campo… e com as suas metralhadoras ameaçavam os mais ariscos para que recuassem uns centímetros… mas não era tarefa fácil… demasiadas pessoas, eu diria não menos que 5.000 pessoas à volta daquelas 4 linhas… e todos queriam estar o mais perto possível do jogo e dos jogadores… e às vezes ficavam loucos… mais que uma vez invadiram o campo por uns minutos, quando a polícia e os militares perderam totalmente o controlo da situação… Típico de África… amor e ódio… vivendo o momento como se fosse o último das suas vidas… Eu estava tão excitado, depois de tanto tempo a querer, finalmente ia acontecer e logo neste palco apocalíptico… Ia jogar futebol!

Afastei-me do campo para conhecer o meu treinador e os meus companheiros de equipa… e senti que os seus olhares estavam todos em sintonia: “Porquê é que este Muzungu quer jogar connosco? Este idiota quer se exibir ou quê?”…. foi isto que li nos seus pensamentos… mas porque era um médico branco de uma organização que emprega mais de 500 pessoas em Masisi, talvez a melhor coisa que tinham na sua cidade… não conseguiam dizer-me que não… tinham que me deixar jogar… E então perguntaram-me em que posição é que eu jogava… eu disse no meio-campo… e assim foi… Ainda que com tanta gente, sentia-me algo sozinho… Comecei a dar uns toques na bola para aquecer e os miúdos estavam deliciados, e deslumbrados com os truques que eu conseguia fazer com a bola…

O momento estava a aproximar-se… e o enfermeiro que aqui me trouxe era o responsável médico desta equipa… e trazia mascaras e luvas na sua maleta… e começou a distribuir 1 gr de Paracetamol a cada jogador… e eu perguntei: “O que estás a fazer? Porquê?”… respondeu-me prontamente… “para prevenir tomam um analgésico, antes que aconteça.”… eu não conseguia parar de me rir…

Deram-me um equipamento e o jogo estava prestes a começar… Quando a multidão se começou a aperceber, que um branco, médico no hospital estava pronto para jogar… a sua curiosidade e interesse no jogo aumento ainda mais…

Quando começa o jogo, o que estava a sentir transcendia tudo o que até ao momento tinha sentido na minha vida… Estar no campo a ouvir todos aqueles gritos, aquela enorme multidão a viver o jogo como se fosse a final da liga dos Campeões… apesar de que era apenas um evento amigável de equipas locais… Alguns jogadores jogavam descalços… mas a sua forma física era impressionante… muito melhor que a minha… e jogavam muito duro… a relva era muito irregular, e por isso o futebol era muito directo e de combate… Mas desde logo perceberam que a forma como eu tratava a bola, tinha mais qualidade, uma técnica mais refinada… Tacticamente e tecnicamente era melhor do que todos eles… mas todos corriam mais do que eu… com ou sem chuteiras… Mas cada vez que fazia um domínio de bola ou fintava alguém o público delirava… Tantos! Aos gritos… “ Muzuuunngguuuuuuuuu!”… eu estava completamente dominado pelas emoções, e nunca jogar futebol tinha sido tão especial na minha vida… um prazer simples mas transcendente… quando parava uns segundos para pensar… vinham-me as lágrima aos olhos… Nunca me tinha sentido tão especial e tão admirado… Paisagem idílica, multidão de milhares na loucura… no meio da guerra… Nada mais interessava para aqueles que ali estavam, para além daquele jogo de futebol… Não havia Tvs, ou rádio, ou uma máquina fotográfica que seja… Nada para provar que isto alguma vez aconteceu… Quem está, está… e apenas estes viveram este dia mágico… Eu tentava agradar o público o mais que conseguia, sem tentar ser a estrela mas jogando para a equipa… Eles não se estavam a acreditar que este “frágil” homem branco… saltava lado a lado, jogava duro, lutava por cada lance com a mesma intensidade que todos os outros… e por esses esforços recebia ainda mais gritos e aplausos para reforçar a minha motivação…

Mesmo antes do intervalo, um canto a favor da nossa equipa… O canto é batido… o defesa corta para fora da área… e aí estou eu… ataco a bola com convicção, e chuto de primeira com toda a força… e é Goooooolllloooooooo!!! Nãaaaooo, não entra! Passou a rasar o poste, e acertou em cheio num soldado… Eu só o vejo a cair para trás com a Kalashnikov a voar por cima da sua cabeça… E era isto que o público amava… Estes momentos cómico-trágicos davam alegria a todos que absorviam o momento…

Chega o intervalo… Sou cercado por centenas de crianças, que lutam aos encontrões para tocar na minha pele… Eu tento juntar-me aos meus companheiros e treinador… que são obrigados a forçar uma nesga na multidão para que eu consiga respirar… O treinador olha para mim com os olhos a brilhar, e todos me dirigem rasgados elogios…

Segue o jogo… muitas vezes a minha mente divaga para o Porto, e para o MGC (a minha equipa de futebol), e todos aqueles que eu gostava que estivessem a viver isto comigo… sentir África, na sua forma mais pura… Parece que cada vez há mais pessoas a ver o jogo… Há uma “claque desorganizada” que começa a gritar o meu nome… as emoções quebram-me por completo a concentração… cada vez que tenho uns segundos de descanso, olho à volta e vêm-me as lágrimas… as minhas pernas começam a ficar muito cansadas… mas eu sinto que tenho uma missão a cumprir… dar a toda esta gente, que já sofreu tanto com esta guerra, momentos de alegria, algo que os faça felizes… Então eu corri, disputei bolas no ar e no chão, passei, fintei e lutei até ao meu último folego, para o delírio de todos… A multidão estava em êxtase!

Termina o jogo, ganhamos 3-0 (como se isso interessasse!)… tinhas dores nas pernas e nas costas como nunca antes… mas também uma deliciosa sensação de missão cumprida…

Mais uma vez fui emboscado por crianças e adultos… Sem exagero, centenas que lutavam para me tocar ou ver-me de perto… Senti que para eles, era mais importante que o Cristiano Ronaldo… E tive que ser resgatado por vários homens fortes para me libertar do sufoco humano… as crianças agarravam-me e não largavam… felizmente o 4×4 dos MSF estava ali para nos levar a casa, porque senão acho que não teria forças para caminhar até casa “a lutar” com a multidão…

À ida para casa, o enfermeiro que me levou disse-me: “Dr. Gustavo, você foi o melhor jogador e fez algo de muito especial para a nossa gente hoje!”…. Palavras e sentimentos que o dinheiro não pode comprar… e só isso, fez com que todos os esforços que eu fiz para estar ali, valessem a pena…

Fiquei famoso na região… Nos dias seguintes, toda a gente falava sobre o jogo de futebol…. Quem lá esteve adorou e teve um daqueles dias que ficam para a vida… quem não esteve, queria ter estado…

Fiquei todo dorido durante vários dias… mas disfrutava cada uma das minhas dores como prova das emoções tão fortes, deste que foi…  O Melhor Dia da Minha Vida… porque ajudei a dar algum entretenimento a quem nada tem…

É isto que acontece quando aproveitamos o melhor do futebol…

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