8. Petit Gustavo

Já passou um ano desde que soltei as amarras em Portugal para ir para o Congo, com a mochila cheia de sonhos, medos e questões… nada sabendo sobre o que me esperava do outro lado da minha viagem… E agora estou de volta… de volta à minha vida tentando não esquecer as emoções que me dominaram na minha missão no Congo… A minha vida continua como se nada tivesse acontecido… mas há outra coisa que também continua… a guerra no Congo! Nem uma, nem apenas uma vez eu ouvi falar sobre a pior guerra do mundo desde que cheguei… é até difícil de procurar notícias sobre o que se passa nas maravilhosas montanhas do Congo… os que morrem na guerra, ou à fome, ou malaria, ou outra doença qualquer… simplesmente não são suficientemente importantes para nós para que apareçam nas notícias… Quando hoje procurava notícias sobre África li que, o maior assassino de crianças com menos de 5 anos é a diarreia… 2000 crianças morrem por dia de diarreia… e a quase totalidade podia ser facilmente evitada com medidas muito simples… água corrente, higiene básica e utilizar um WC… parece fácil, não parece? Mas não é… E a cada dia que acordamos preocupados com a nossa vida stressante, 2000 crianças com menos de 5 anos morreram no dia anterior por não terem estes recursos, algo que nós damos como garantido à nascença… Mas espero sinceramente que a criança desta história que vos vou contar, não sofra de qualquer um dos muitos assassinos do mundo subdesenvolvido…

Ele tinha 2 semanas de idade e vomitava desde a nascença… perdia peso e estava a ficar extremamente desidratado. Para além do meu grande amigo cirurgião Yaroslav, naquela altura estava um cirurgião Belga muito polivalente, que já tinha muitos anos de experiência em África e era um médico muito sábio… Ele suspeitou que o recém-nascido pudesse ter uma Estenose do Piloro, que é uma doença que vemos com alguma frequência nos recém-nascidos, que no fundo é um aperto à saída do estômago que faz com que o bebé cada vez que amamenta, vomita… e que lhe causará a morte se não for tratado… O cirurgião chamou-me e disse-me que queria operar este pedacinho de gente no dia a seguir… E eu fui então ver e avaliar o rapazinho… com algum receio logo à partida… Todos os Anestesistas têm algum medo de bebés tão pequeninos, e assim desnutridos e desidratados muito pior… e quando não temos exames laboratoriais a tarefa se torna ainda mais difícil. Já vi alguns casos destes em Portugal, e que não apresentam um desafio ou risco de vida por maior, porque o diagnóstico é feito sem demoras e os bebés encontram-se bem hidratados, nutridos e em pleno equilíbrio fisiológico… especialmente no que diz respeito ao que chamamos equilíbrio hidro-electrolítico: fluidos, ácido-base e iões. Bem, uma coisa jogava a meu favor… não tinha qualquer opção… se o bebé não fosse operado ia morrer, e quanto mais se adiasse menos hipóteses teria de sair com vida…

Fui para casa “devorar” os livros que trouxe comigo para estudar tudo o que conseguisse para estar à altura da situação… o problema é que os livros que nós temos, não nos preparam para trabalhar sem recurso a análises, e por tanto, muita coisa tinha que presumir ou tentar adivinhar sobre o estado do bebé… Para quem não sabe, a Anestesia não é adormecer as pessoas… envolve todos os passos antes, durante a após a cirurgia… e se o bebé morre, é nas minhas mãos, sob a minha total responsabilidade… Depois de fazer muitos cálculos voltei ao serviço de Pediatria e preparei as perfusões misturando os fluidos, a glicose e os iões… e depois expliquei em detalhe aos enfermeiros o que se passava na minha cabeça e a velocidade de perfusão que previa até ao dia seguinte… (não temos máquinas perfusoras, por isso temos que contar as gotas, coisa que felizmente para estes enfermeiros era práctica corrente)… Foi para mim muito exigente e desgastante a preparação para este doente… e tive que misturar os meus conhecimentos médicos com o que tinha lido nos livros adaptando-me às condições de trabalho que tínhamos… e com uma boa dose de esperança que tudo corresse pelo melhor… ufff …. os recém-nascidos são muito difíceis de gerir e quando estão em estado crítico são extremamente imprevisíveis e um pequeno erro da minha parte podia lhe custar a vida… Durante as minhas avaliações consecutivas do pequenino, claro que a mãe estava sempre ao lado muito atenta e preocupada com os dias que aí vinham… O quanto mais ela via os Muzungus (os brancos) à volta do seu filho de 14 dias, mais ela ficava nervosa e cada vez com mais perguntas inquietantes sobre o prognóstico do seu menino… e como sempre eu tentava responder em palavras simples, mas com a verdade cruel de que tudo podia acontecer…

O dia seguinte era apenas mais um dia com muitas cirurgias e muitas anestesias para fazer… mas com um caso muito especial e delicado… O recém-nascido parecia ter ganho alguma vida depois de 18 horas das perfusões preparadas por mim… Mas fiquei com o coração muito apertado quando a mãe banhada em lágrimas, me entrega em mãos o bebé…

Nesse dia cheguei ao bloco operatório bem cedo, para que pudesse preparar com calma todos os medicamentos e material adequados para este pedacinho de gente… E então, tudo estava pronto quando ele chegou… Tentei explicar aos enfermeiros anestesistas, que trabalhavam comigo, o máximo que consegui… Mas fico com a sensação de que não se apercebem do quão grande era este desafio para mim, o de “segurar” este bebé que estava tão fraco e desidratado…

A indução da anestesia decorreu normalmente e sem percalços entubei a traqueia do bebé… Segui todo o plano e cálculos feitos previamente durante toda a anestesia… Os cirurgiões começaram a operar e logo confirmaram o diagnóstico… a saída do estômago (o piloro) foi cortada para que se tratasse esta doença… a cirurgia foi um grande sucesso… Mas o meu sossego estava longe de estar conquistado… Tive que esperar para ver se ele estava capaz de recuperar em pleno a sua capacidade de respirar e se acordaria sem problemas… Levou algum tempo mas correu tudo muito bem… o bebé acordou bem e muito calmo, e no recobro todos os seus sinais vitais continuavam impecáveis… Estávamos todos muito contentes, especialmente a mãe… Após uma pequena explicação do que tinha acontecido e de que ainda demoraria algum tempo até que ele o visse no seu estado prévio, trouxe-a até ao recobro…. e ela chorou de alegria por ver que ele estava bem… Foi tão bonito! Ela ficou sentada a olhar fixamente o menino sem sequer piscar os olhos até que eu lhe dei permissão de o pegar ao colo… Ela estava extremamente preocupada pelo bem-estar do seu bebé… Por vezes as pessoas pensam que por tantos morrerem, eles não sofrem como nós… mas não é verdade! Sofrem extactamente da mesma forma!

Mas o meu trabalho ainda não tinha chegado ao fim, tinha que me assegurar que recuperava a sua saúde perdida até ser um bebé normal para os seus dias de idade. Com a ajuda das perfusões e esperando que a cirurgia não tenha complicações, esperávamos pelo momento em que o bebé começasse a ser amamentado com normalidade… E então eu fui fazendo o seguimento de perto a cada dia do pós-operatório… e deliciava-me com o sorriso da mãe que a cada dia era maior, assim como o recém-nascido que crescia a olhos vistos… A cada dia sentia que estávamos mais perto da vitória, e a cada dia a mãe mostrava mais alegria e orgulho quando me passava o bebé para as mãos para eu o avaliar… E é incrível como estabelecemos uma relação com laços fortes ainda que sem falar a mesma língua… apenas com sorrisos, alguma linguagem gestual, e umas traduções aqui e ali feitas pelos locais…

O bebé não podia estar melhor, a mãe não podia estar mais contente e eu também estava muito feliz… E quando estava prestes a ter alta, uma semana após a cirurgia eu fui à ala pediátrica para me despedir da mãe e do bebé que agora com 21 dias transbordava saúde… A mãe começou a olhar para mim determinada e dirigia o seu Swahili na minha direcção… Infelizmente não percebia nada (a minha preocupação era melhorar o meu francês) e um enfermeiro Congolês entrou em cena para traduzir:

“Doutor, a mãe quer que você escolha um nome para o bebé!” Aqui ninguém dá os nomes antes do nascimento… Imagino que uma das razões é porque nunca se sabe o que vai acontecer até o bebé estar bem…

“Mas eu não sei nome nenhum em Shawili!” respondi eu…

“Não é isso. Ela quer dar o seu nome ao bebé!”  Bem, correu pelo meu corpo uma descarga de adrenalina que não dá para imaginar, até senti as pernas a tremer… Nunca me tinha acontecido nada parecido e fiquei extremamente emocionado com esta frase…

“O meu nome é Gustavo, pergunta-lhe se ela gosta!” disse eu…

“Ela diz que gosta muito e pergunta o que quer dizer o nome!” … uuuupppsssss…. Não faço ideia… acho que todos lemos alguma vez na vida o significado do nosso nome… mas eu nunca dei a isso muita importância… Mas em muitas regiões de África tem um grande significado para eles, e por isso eu não podia desiludir aquela mãe e aquele pequenino…

“Quer dizer forte, corajoso e inteligente!” … mostrando os meus músculos, menti com confiança… Ela riu-se e assimilou a informação num regozijo de alegria…

Virei as costas à mãe e ao Petit Gustavo depois de lhes dizer adeus… e com as lágrimas nos olhos fui para o meu spot favorito do hospital, de onde se podia apreciar uma vista maravilhosa da paisagem que nos rodeava a 360º… e pensava no Petit Gustavo.

Nestes momentos, em que vemos o nosso esforço compensado por uma vida salva… e depois sentimos que alguém está disposto a dar o nosso nome ao seu filho como sinal de apreciação… tudo passa a fazer sentido… Deixar para trás todos que amamos, faz sentido… Perder todo o Verão, faz sentido… Perder dinheiro, arriscar a vida e desafinar alguns parafusos na minha cabeça, tudo faz sentido… Não cabia no meu sorriso ao pensar que agora havia uma criança com o meu nome no Congo… Será que o ia voltar a ver? … Iria ele sobreviver à guerra?… Transformar-se-á numa criança-soldado? … Sobreviverá à Malaria?… Ou vai ser parte das 2000 crianças que morrem por dia, por diarreia? … Ou qualquer outro dos assassinos de África?

Pensava no meu afilhado, quase com 1 ano, e na sorte que tinha por ter nascido numa parte do mundo onde os cuidados de saúde estão tão desenvolvidos, e onde as crianças crescem saudavelmente quase sempre sem problemas… e o Petit Gustavo tem o seu destino à mercê de uma roleta russa… Até agora teve bastante sorte, que no meio das montanhas em guerra encontrou um hospital onde os cuidados de saúde diferenciados e gratuitos eram uma realidade… É muito caro fazer funcionar todo um hospital com capacidade cirúrgica, e muitas vezes me perguntava se usamos o dinheiro correctamente, se por exemplo em campanhas de vacinação não se salvaria muitas mais vidas? … A resposta é simples… Sim, salvar-se-iam mais vidas dessa forma… mas ao mesmo tempo, há algo que estamos a oferecer que não tem preço… Esperança! Com uma mensagem para toda a população que vive num dos piores locais do planeta… Que há algumas pessoas de todo o mundo… vindo sabe-se lá de onde… para prestar cuidados de saúde grande qualidade, e capazes de tratar situações complicadas… para que um dia este local venha a ser o paraíso na Terra que deveria ser…

Uma vida foi salva, mas muitos recebem uma mensagem fortíssima: Muitas pessoas pelo mundo fora, preocupam-se com o que se passa no Congo… especialmente aqueles que doam o seu dinheiro aos Médicos Sem Fronteiras ou a outras organizações, e tornam o trabalho no terreno possível…

… e é para todas estas boas pessoas que são felizes ao se preocuparem e a dar, que eu dedico esta história…

Que o Petit Gustavo viva por muitos anos, para que um dia a sua mãe lhe conte a história e ele possa contar ao mundo de como a sua vida foi salva… para que a ESPERANÇA nunca desapareça!

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