3. Zona Vermelha (1)

O meu dia a dia em Masisi, era basicamente casa-hospital, hospital-casa. Uma distância de 300 metros delimitava o meu mundo, e de uma certa forma sentia-me encurralado numa espécie de prisão. Não tinha tempo, nem podia ir a lado nenhum. E as poucas vezes que fui ao centro da cidade, nada havia para ver ou fazer… e assim passava os meus dias imaginado todo um Congo fantástico à minha volta, mas não ao meu alcance.

Não posso dizer que tenha visto muito deste enorme Congo, nem sequer da região onde eu estava, apesar de que Masisi fica num dos locais mais bonitos que eu já vivi, rodeado de montanhas verdes e cheias de vida… Ainda assim, é um sentimento estranho e castrador, não poder ir a lado nenhum e viver com a liberdade tão condicionada… Regras de segurança apertadas e a falta de tempo confinam-me a estes pequenos 300 metros… Muitos dos meus colegas à noite, à volta da mesa contavam histórias sobre os lugares que tinham deliciado as suas vistas e corações… E eu sentia que precisava de ver um pouco mais desta parte de África maravilhosa, que muita gente apelida carinhosamente como os Alpes Africanos… Muitas vezes pedia ao meu chefe, o coordenador do projecto, para ir a “algum” lado buscar doentes para trazer para o nosso hospital, ou fazer algumas das emergências pré-hospitalares que nós fazíamos… Mas a resposta era sempre a mesma para minha tristeza: “Gustavo, tens que ficar no hospital para o caso de chegar ao hospital casos complicados para operar!” E eu, claro que percebia que ele tinha razão… mas queria ir na mesma!

Masisi estava sob o controlo do exército Congolês e das Naçãos Unidas, ainda que frequentemente houvesse conflito activo dentro da cidade… mas tirando esses dias, a Zona Vermelha começava a cerca de 10 kms de Masisi, e dessa linha em diante era oficialmente uma zona de guerra. Onde havia conflitos quase diariamente e de uma forma sempre imprevisível!

O meu chefe estava nos seus 50 anos e tinha uma experiência ímpar de muitos anos nesta zona do Congo, e poucos sabiam aquilo que ela sabia sobre a complexidade da guerra do Leste do Congo… Ele é uma espécie de lenda e até herói para aquele povo, porque em 2007 este projecto começou graças a ele, quando a guerra estava dentro e a 360º de Masisi, e enquanto todos tentavam fugir daquele cenário ao nível do “Apocalypse Now”, ele chegou e decidiu ali ficar e ajudar aquela população que estava desesperadamente necessitada de ajuda humanitária… Mais ninguém estaria a ajudar esta população inocente vítima desta guerra terrível, se não fossem os Médicos Sem Fronteiras e a sua decisão de pôr um hospital a funcionar, quando as balas voavam por todo o lado, e ninguém estava seguro em lado nenhum…

Era um Sábado à noite e eu estava a beber um copo de um péssimo vinho do Ruanda (que era tudo o que tínhamos) e à conversa com os meus companheiros nos poucos momentos que conseguíamos ter de descontração e aparente “normalidade”, quando o meu chefe chegou e me perguntou ao ouvido: “Vou buscar 2 doentes a Likueti amanhã, queres vir comigo?” Era uma aldeia no epicentro da Zona Vermelha… zona exclusivamente controlada por grupos rebeldes e onde o exército Congolês e as Nações Unidas eram consideradas o inimigo e nem lá perto chegavam…
Sem hesitação, disse Sim…. “Põe-te pronto às 6.00!” foi tudo o que me disse antes que continuássemos as conversas cheias de vida que estávamos todos a ter… E eu ia fazendo de conta que seguia a conversa, mas não conseguia evitar que a minha mente estivesse agora 100% ocupada com as expectativas que iam crescendo sobre o meu amanhã! Nenhum dos meus companheiros lá tinham ido, e como os outros 2 médicos eram mulheres, a decisão caiu sobre mim… Talvez elas fossem mais duras e mais experientes do que eu, mas para o meu chefe tendo em conta que era preciso ir um médico, se ele ia assumir esse risco de ir a um local onde tudo podia acontecer… era desnecessário de correr o risco de levar uma mulher… Ser atacado, preso, perdido no mato, violência sexual… tudo era possível, se por azar nos encontrássemos no sitio errado à hora errada!

Finalmente ia a algum lado… e estava feliz por isso e também por sentir que os locais de mais difícil acesso, são onde a nossa ajuda se torna ainda mais essencial…

Com o olhar perdido na escuridão da noite… me apercebia que os meus sonhos cresciam para além do meu imaginário…

Até o vinho me começava a saber melhor… O meu coração estava a bater mais rápido, e depois de terminar esse copo fui para a cama ainda não eram 22.00… Estava certo que não ia conseguir dormir, mas parecia-me uma boa ideia deitar-me na cama entretendo-me a pensar e falar comigo próprio…

Antes de virar as costas ao Porto, passei por alguns dos meus sítios preferidos da cidade e fotografei-os em memórias com a sensação que poderia estar a vê-los pela última vez… assim como as pessoas que eu adoro, fixei as suas caras bem vivas nos meus pensamentos… e tudo isso passava na minha cabeça como se de um filme se tratasse, cada imagem, devagar e sem pressa… brincava com as minhas memórias, pensando em tudo e todos que fazem o meu mundo, e me deixam tão feliz por estar vivo… Não sei bem se cheguei a dormir nessa noite… durante muitas horas estava bem entretido, sem Tv, sem internet, sem mais ninguém… apenas eu e um mundo de memórias… chorei e sorri… pelas mesmas razões… Tudo o que amo e me faz feliz… é também o que me faz chorar… “Saudades!”… e o sentimento estranho de que ia mesmo para dentro de uma zona de guerra…

Quando me levantei pelas 5 da manhã, a minha viagem nos meus pensamentos tinha chegado ao fim, era agora tempo de viver o momento! Como muitos dos outros dias, não havia água da torneira (um duche frio eram raras mas boas notícias), e fui então buscar um balde de água para tomar banho… como era demasiado cedo ainda não havia água aquecida (que era aquecida pelos guardas)… e assim foi um banho de balde de água fria para acordar os sentidos. Também não tinha nada para comer por ser tão cedo e os restos frios do jantar não me pareceram uma boa ideia, antes de uma viagem muito longa e acidentada, nas piores estradas que se pode imaginar. Tinha a certeza que durante muitas horas não teria nada para comer, mas estava pronto e nos píncaros da minha motivação para ir….

Dois grandes 4×4 e dois motoristas congoleses e o meu chefe que ia fazer a primeira parte do longo caminho de mota para poder regressar mais rápido, pois nesse dia ele ainda tinha que voltar para Goma.

Cerca de uma hora e meia de estradas perdidas nas montanhas nos levaram até Nyabiondo, uma vila logo após a linha que definia a Zona Vermelha… É bastante triste sentir o pulso a esta vila, que antes era importante , mas agora rodeada pela guerra, não parecia ser um bom sítio para viver… mas muita gente aí vivia, dormindo algures pelas montanhas à volta e descendo ao centro da vila durante o dia para fazer os seus mini-comércios de subsistência… à noite voltavam a esconder-se nas montanhas para que não fossem um alvo fácil para o exército ou os rebeldes, que os roubavam ou matavam ou violavam as suas mulheres… A base da MONUC (Mission of the UN in Congo) era também impressionante… um edifício assustador, bombardeado em várias partes das suas muralhas que eram rodeadas de várias camadas de arame farpado e onde se podia ver muitos dos seus soldados em vigia no alto dos muros, com as suas metralhadores constantemente apontadas para todo o perímetro da sua envolvência…

(Infelizmente não tenho qualquer fotografia destes momentos, pois estas estão totalmente proibidas e se alguém me visse de camara em riste punha a minha vida e dos que estavam comigo em risco…)

A partir deste ponto, o meu chefe saltou para um dos 4×4 porque já nem estradas havia daqui para a frente… apenas estes poderosos todo-o-terreno a desbravar caminho pela selva a dentro… Tivemos que parar inúmeras vezes porque ficávamos atolados, ou para improvisar pequenas pontes com pedras e troncos de árvore passando os pequenos riachos que cruzavam o nosso caminho… aventura no seu extremo… como nunca poderia imaginar… nem nunca teria palavras para o descrever… Paisagem linda com montanhas a toda a volta, palhotas e cabanas aqui e ali, e um verde como mais verde não há, onde tudo é natural e natureza, sem qualquer traço de humanização a estragar a paisagem…

Poucos minutos depois de sairmos de Nyabiondo, na direcção do centro dos centros da Zona Vermelha, comecei a ouvir o radio do carro:

“Gustavo, Gustavo pour Phillipe!” : Adorava comunicar por estes rádios enormes e com estes códigos de comunicação que apenas usávamos para mensagens cruciais… faziam-me sempre sentir estar num cenário de um filme.
“Oui Phillipe, je t´ecoute”. respondi
“Ça va Gustavo?” Mal tínhamos falado de manhã. Tínhamos iniciado a viagem, sem tempo a perder.
“Trés bien, pas de problem”

“J´ai besoin de parler avec toi!” O que é que seria importante para me dizer enquanto avançávamos para a “terra de ninguém”, antes de chegarmos à zona controlada pelos rebeldes? Por uns segundos fiquei ainda mais nervoso.
“Oui Phillipe”

“Standart a gagné, hier!” Eu e o Phillipe tínhamos algo de muito forte em comum, o nosso amor incondicional pela equipa de futebol da nossa cidade. Várias vezes tivemos conversas deliciosas, onde discutíamos qual o melhor clube do mundo! E se o FCPorto teve os seus momentos de glória, como em 1987 e 2004, já o Standart de Liege não podia dizer o mesmo… mas eu adorava sentir a sua paixão quando me dizia, que sem margem para dúvidas o Standart era o melhor clube do mundo…. A magia do futebol quando é usada da melhor maneira, faz as pessoas falar e partilhar as suas paixões parvas mas que significam tanto, tanto para mim como para ele… estávamos em sintonia nas nossas paixões que nos fazem sentir tantas saudades…

“Et Porto?” continuou o Phillipe.

“On a gangné aussi!” Tinha acabado de ler uma mensagem da minha mãe essa manhã com as boas notícias…

“Mon ami…., La vie est Belle!!!”…. E por um motivo tão supérfluo como o futebol… eu estava feliz e a sorrir graças ao Phillipe quando estava a cometer um dos maiores riscos da minha vida!

Obrigado Phillipe… a alma e coração do nosso projecto… sempre com boa disposição e super profissional… um herói!

Depois de 12 anos a trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras, e de ter estado em quase todos os locais do planeta onde rebentam bombas dizia-nos com muito orgulho:

“Eu não trabalho para os MSF. MSF é a minha vida!

(esta história continua)

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